Arquivo da categoria ‘Mundão da internet’

Provavelmente nos últimos tempos você leu/ouviu frases muito similares a estas:

– O paciente João dos Anzóis tomou a fostoetanolamina por seis meses e ficou curado do câncer de próstata!

– O irmão do cunhado da minha tia pegou um táxi e foi ludibriado no troco, além do motorista não ter ligado o taxímetro, ter sido extremamente grosseiro e, para piorar, pego o caminho mais longo para aumentar o valor da corrida!

A estas afirmações se atribui o nome de evidências anedóticas, ou seja, evidências verificadas em um número baixíssimo de eventos – muitas vezes apenas um -, de maneira informal e normalmente por pessoas não-habilitadas a coletá-las. Geralmente, possuem forte apelo emocional e tendem a se integrar rapidademente ao imaginário popular. Mas não servem, de forma alguma, para estabelecer políticas de grande repercussão social, como a aprovação de medicamentos e a elaboração de políticas de mobilidade urbana. No máximo, servem para que elaboremos conclusões generalizadas e desvinculadas dos fatos, nem sempre salutares. Além disso, por seu próprio apelo e repercussão, tendem a ser lembradas de forma mais viva e dramática pelas pessoas. Ninguém comenta, por exemplo, sobre as pessoas que tomaram a mesmíssima substância e infelizmente sucumbiram ao câncer de qualquer maneira, nem das incontáveis corridas de táxi que fez durante a vida em que tudo correu exatamente como o esperado.

Para que se verifique a nocividade deste tipo de procedimento, basta pensar quantas vezes, ao longo da vida, tomamos decisões levados pela emoção – ou, como dizemos, “de cabeça quente” – e acabamos sendo imensamente prejudicados, findando por lamentar o fato de não termos escolhido outro caminho.

Nesta polêmica do Uber, é exatamente frente a isto que nos encontramos: por ter havido um caso grave de agressão a taxista em Porto Alegre, já somos todos contra a “máfia dos táxis” e plenamente favoráveis ao uso do aplicativo.

Mas um minutinho de reflexão traz algumas questões absolutamente relevantes. Por exemplo, é possível confiar inteiramente na iniciativa privada para regular um serviço de utilidade pública, sem a realização de estudos ou qualquer levantamento mais sério sobre a forma como tal serviço é prestado?Exemplos de serviços anteriormente privatizados que simplesmente não funcionam não precisam ser muito procurados. Aparentemente, o Uber verifica antecedentes criminais dos candidatos a motorista, mas num país em que o número de crimes solucionados é irrisório este procedimento assegura a isenção dos passageiros de qualquer risco? E mesmo que o motorista seja uma pessoa idônea, há a garantia de que os dados que trafegam no aplicativo são 100% seguros e impossíveis de serem rastreados por pessoas com interesse em saber a rota exata e os horários de deslocamento de determinada pessoa?

Por outro lado, a pressa dos vereadores de Porto Alegre em vetar o uso do serviço corrobora, e muito, outra idéia já fixada no imaginário popular, segundo a qual todo político é corrupto e está sempre participando de algum esquema. No fundo, qual a real intenção por trás de cada voto? Decidiram com base em dados relevantes e concretos? Possuem condições de apontar eventuais falhas no serviço que justifiquem a proibição? Não possuem nenhum interesse econômico na discussão?

Ninguém sabe concretamente, em nenhum dos dois casos. Como sempre, estamos decidindo coisas relevantes no escuro, não tomando o devido tempo para reflexões e discussões sérias. E este é o ponto: somos um país formado por pessoas que se recusam a raciocinar, simplesmente desprezando a competência técnica, com a crença em que nada de mal irá acontecer pelo simples fatos de agirmos assim. Do dia para a noite, somos todos médicos, engenheiros de minas, geólogos, especialistas em política do oriente médio e engenheiros de trânsito, aptos a dar opiniões definitivas sobre tudo. E, enquanto continuarmos agindo assim, não sairemos do buraco para o qual cada vez mais infelizmente rumamos. Mas só acho…

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Como a maioria das pessoas, não li os termos e condições de uso do Facebook e nem de nenhum outro serviço online, mas tenho quase certeza que não há neles qualquer obrigação do usuário emitir sua opinião sobre cada assunto de grande repercussão que surge.

Sendo assim, acaso não tivermos nenhum conhecimento médico, bioquímico ou farmacológico, nem feito pesquisa científica em qualquer área, que tal evitarmos sair praguejando por aí contra a indústria farmacêutica e repetindo, como papagaios, que o Brasil encontrou a cura do câncer, que tudo não passa de uma grande conspiração para desacreditar os pesquisadores brasileiros e que a fosfoetanolamina deve ser colocada nas prateleiras das farmácias ontem?

Igualmente, se nunca lemos o Corão nem temos conhecimentos suficientes sobre a situação política, social e econômica no Oriente Medrio, que tal não pregar, imediatamente, a morte de todos os muçulmanos como forma de alcançar a paz mundial?

Em último caso, na dúvida, que tal usarmos o bom e velho bom senso?

Se a frase “a indústria farmacêutica não quer a cura do câncer para continuar vendendo quimioterápicos” fizer algum sentido, que tal se colocar no lugar de um grande acionista de uma farmacêutica e se perguntar se um remédio que cura o câncer não poderia ser vendido por muito mais que um quimioterápico, aumentando o lucro? Que tal considerar que o câncer, infelizmente, é uma doença que costuma apresentar recidivas e seria muito mais interessante vender o medicamento para o mesmo paciente duas, três ou quatro vezes (lembre-se, todos os casos seriam curados, portanto sempre haveria esta possibilidade) ao invés de quimioterapia apenas uma? Ou ainda, conforme o resultado dos testes clínicos, estabelecer um tratamento com a droga mediante administração contínua para evitar recidivas, lucrando indefinidamente em cima de cada paciente?

Da mesma forma, se a tentação de dizer que é muita coincidência ocorrer um ataque terrorista islâmico toda vez que a população brasileira prepara uma manifestação importante contra um partido que quer estabelecer uma ditadura socialista/comunista no Brasil, que tal parar para pensar no motivo pelo qual um grupo religioso radical e extremista colaboraria com um partido que professa um sistema político e econômico que historicamente tem simplesmente varrido as religiões, inclusive de forma violenta, dos lugares onde passa?


Executivo da France Telecom sai, depois de 24 suicídios na empresa
Do Valor OnLine
SÃO PAULO – A operadora francesa France Telecom anunciou hoje a saída de seu vice-presidente, Louis-Pierre Wenes, após uma onda de suicídios de trabalhadores verificada na empresa nos últimos meses.
O executivo será substituído por Stéphane Richard, ex-vice-presidente das operações internacionais, também cotado para assumir a liderança da empresa em 2011, no lugar do atual presidente-executivo Didier Lombard.
Os sindicatos culpam a restruturação da companhia realizada por Wenes pelos 24 suicídios ocorridos no quadro de funcionários da France Telecom, em cerca de 20 meses. O plano de modernização envolveu mudanças nas funções dos trabalhadores dentro da empresa, além da cobrança de novas metas.
A empresa, em contrapartida, afirma que esta taxa de suicídio não é incomum para uma companhia de seu porte.
(notícia do site G1 05/10/09)

Isto é a parte prática, ou como diriam os auditores de ISO 9000, as evidências objetivas das políticas ditas voltadas aos recursos humanos, a valorização das pessoas, ao investimento no capital humano. Isto é o que está escrito no mural de 9 entre 10 empresas. O maior bem de uma empresa são seus funcionários. Ou ao menos aqueles que sobreviverem.

Ou, segundo os comentários de colegas, ao ouvirem mais um plano de reestruturação da empresa: “Quem ficar vai ficar bem!”

Um período de férias, quando o camarada está em um estágio de cansaço físico e mental quase insuportável, pode ser a melhor coisa a se fazer. No meu caso, estou aproveitando para colocar um monte de coisas em dia. Mais tempo para fazer as coisas que normalmente não teria tempo, mais cuidado com a vida pessoal. Enfim, puro hedonismo.

Já havia visitado várias vezes o Perólas do Orkut, mas nunca havia tido tempo de avaliar detalhadamente os posts, ainda mais que para acessar o próximo post é necessário dar uma nota para o que se está visualizando. Ontem, munido de alguma curiosidade mórbida e em ritmo de vadiagem remunerada, resolvi dar notas compatíveis com as imagens, para conhecer melhor o site. Poderia dar nota 1 para todos os posts apenas para seguir lendo o blog, mas acho que não é interessante tomar esse tipo de atitude, já que a iniciativa é justamente avaliar o nível da participação brasileira no site de relacionamentos. Em relação ao qual eu tenho uma certa resistência, quero deixar bem claro. Tenho perfil no Orkut apenas para não ficar totalmente fora da órbita e manter contato com alguns velhos amigos que há tempos não vejo ou reencontrar outros dos quais não tinha mais notícia. Mas não adiciono uma viva alma que eu não conheça efetivamente. Sabe aquela coisa ‘fui teu colega na quarta série primária, lembra de mim? Me add aí’. Se eu não lembrar, nada feito.

O caso é que eu não consigo rir do que vejo no site. Simples assim. Sinto uma tristeza tão grande, uma revolta com o sistema educacional, uma preocupação com a falta de bom senso/bom gosto e com a total falta de referência do povo brasileiro, estampadas naquelas imagens. Claro que são as pérolas, o crème de la crème da burrice e do mau gosto. Não representam, de forma nenhuma, a sociedade brasileira como um todo. Mas mesmo assim é difícil saber que tem gente que não sabe escrever sequer o mais básico, que não tem a menor noção e/ou pudor, que faz bobagem, pratica crimes, adota atitudes ofensivas, fotografa e ainda publica no tal de yakult. Imagine um antropólogo de uma universidade estrangeira que vá fazer um estudo sobre o povo brasileiro e tem alguma preocupação com a interação social via redes da web. Se souber português, vai chegar a conclusão que somos todos uns imbecis, não merecemos mesmo ter mais do que temos, e chega até a ser surpreendente que não sejamos uma das nações mais pobres, miseráveis e doentes do mundo. A amostragem é pequena, claro, mas ainda assim é uma amostragem. Fiquei deprimido, para falar a verdade.

Quer ter uma pálida idéia do que eu estou falando? Dá uma olhada e veja se dá para dar risada disto.

Deu guru!

Publicado: 16/07/2008 por BigDog em Mundão da internet, Não há o que não haja!

O leitor mais atento deve ter notado que, temporariamente, os quinze últimos posts aqui da casa saíram do ar. Por uma incompetência atroz deste que vos escreve, uma operação de importação do contiúdo (como diria o Briza) aqui do site para posterior importação lá no ‘Projeto Gente Grande’ acabou resultando nesta catástrofe. Para sorte, tinha feito backup dos posts até o do crocodilo assassino do Burundi, e pude recuperar os textos até essa data sem problemas. Como os meus textos posteriores, assim como os do Crânio, estavam salvos no Zoundry Raven, também deu para recuperar as postagens posteriores de nossa lavra – ainda que tenha me custado um deslocamento até a casa dele, onde não pude tomar nenhuma cervejinha, porque estava dirigindo, apesar de estarmos ambos em férias – e, pela graça de Deus, o Alemão não tinha escrito mais nada! Aliás, seu Felipe, traz o notebook no churras de amanhã para a gente instalar e configurar o Raven para o senhor. Muito melhor e mais prático que o Word, além de servir para essas eventualidades. Enfim, todos os textos foram recuperados, mas, infelizmente, os comentários se perderam. Desculpem a barbeiragem. Voltamos com nossa programação normal.

Dúvida atroz que tem me perseguido nos últimos dias. Não que eu tenha ficado abalado com a treta que tive com o Grande Abóbora a ponto de perder a convicção no que escrevo. Na verdade, só a aumentou, mas isso é outro assunto. O problema é que a assim chamada blogosfera brasileira dá sinais de uma podridão escandalosa e fico meio cabreiro de participar desse balaio de gatos. Já compreendi que não sou bem vindo, afinal de contas não provoco brigas desnecessárias, não me envolvo em polêmicas e nem critico gratuitamente quem pensa diferente de mim. Se você for verificar os comentários aos diversos posts aqui da casa, verá que eu tomo laço de todos os lados, principalmente dos outros dois acadêmicos. Mas essa é a própria essência do tal de blog, a controvérsia, a discussão sadia e educada sobre pontos controvertidos. Às vezes 'rola um clima', o sujeito fica indignado com o que leu e acaba transparecendo no debate uma certa irritação. Faz parte do jogo, toda interação humana eventualmente descamba para o desentendimento e a irritação. Fico me perguntando – e não respondendo, afinal não falo com qualquer um – se vale a pena continuar nesses termos, se para ter audiência o camarada precisa ser pedante, arrogante e mal-educado. Felizmente, tive uma epifânia que me fez concluir que sim, vale a pena. Em razão de dois momentos e situações distintas.

Em 24-04-08 saiu uma matéria muito bem escrita pelo Daniel Duende no site Global Voices Online, citando um texto aqui da casa, com todos os créditos e link para o site. Foi a primeira grande referência à ABRIC na web, e já estávamos há mais de ano na labuta. Como não ficamos pagando pau, pedindo link, fazendo cortesia com chapéu alheio, xingando leitor, enfim, como não estamos explorando o esquemão tradicional de 'inserção' na blogosfera, para nós foi uma vitória, um grande passo rumo ao nível de (aqui está certo, podem procurar) atenção atual, que nem sei se merecemos. Enfim, foi uma resposta legal ao nosso trabalho – trabalho não é bem o termo, mas vá lá – e fez muito bem para o ego. Desde então, a quantidade de posts subiu, assim como a qualidade. Eu até ando com vergonha de escrever, porque Alemão e Crânio estão se superando a cada dia.

O outro fato, bem menos agradável, veio em 28-06-08. Nem quero falar muito sobre o assunto, ficar aqui relembrando o irrelevante e explicando o óbvio é muito cansativo. De verdade. Resumindo, se o leitor não acompanhou a quizília, fui criticado, escarnecido e ofendido, chamado de comunista, bundão e debilóide. Tudo porque ousei discordar das eminências que fazem a tal blogosfera ou, como eles mesmos adoram dizer, 'fiz um mimimi'. Mantenho tudo o que disse, e acrescento que foi muito triste ver tudo aquilo acontecer, ficou tão evidente a vontade de criar polêmica à toa para se promover e ao mesmo tempo de reafirmar a visão tacanha de um grupo fechado hermeticamente e impenetrável para meros mortais como nós. Enfim, conseguir audiência à custa de baixaria, que é o que dá IBOPE. Por mais que digam o contrário, que são 'OS' inteligentes e que não querem gentalha no site deles, os caras perceberam que o povão gosta mesmo é de ser chutado, chamado de burro e ignorante, enquanto assiste alguém se digladiando a troco de quase nada.

Mas que diabos eu quero dizer com tudo isso? Simples, no mês de abril tivemos um incremento de 58% no número de visitações em relação a março, enquanto que em junho foi apenas de 17%. Ou seja, a matéria do Global Voices foi muito mais significativa para o nosso blog – aqui vale lembrar, não se tratam dos pára-quedistas que os blogueiros profissionais abominam, mas pessoas que continuaram retornando, porque a estatística permaneceu igual dali para frente – do que o barraco com um dos medalhões da blogosfera profissional. É bem verdade que o dia com maior visitação da ABRIC foi na segunda, 30-06-08, quando o post do Big Pumpkin foi lido por seus devotos, que saíram a tacar lenha na fogueira, dizendo que eu era um retardado por ter afirmado coisas que, na verdade, eu NUNCA escrevi. Mas esse é o 'efeito Contigo', a fofoca atrai um monte de gente, mas logo na próxima perde a graça. Enfim, concluí que é melhor seguir escrevendo sobre o que acredito, da forma que sempre fiz, que a coisa só tende a melhorar. Sigo blogando, portanto. Ainda mais que o 'Projeto Gente Grande' está em fase de finalização, e agora já não dá para voltar atrás.

Um dia desses eu estava assistindo vídeos no YouTube, sem qualquer finalidade específica, só por curiosidade, até que me deparei com este:

Trata-se de uma filmagem independente (aparentemente), contando breve histórico de Gustave, um crocodilo-do-nilo que vive no Burundi, pequeno país da África central. Segundo consta, o réptil tem 6 metros de comprimento, mais de 900 kg e cerca de 60 anos de idade, tendo devorado mais de 300 seres humanos às margens do Rio Rusizi, que desemboca no famoso Lago Tanganica.

A enormidade do animal, classificado como o maior crocodilo já visto na África, deve-se ao seu gosto peculiar por carne humana, hábito que desenvolveu na época em que a ditadura militar do Burundi jogava os inimigos do regime no habitat de Gustave.

Evidentemente, a National Geographic já fez máterias sobre o “jacaré” em sua programação. Mas o mais incrível é que foi rodada uma produção bastante criticada sobre o crocodilo para o cinema, chamada “Primitivo”, no qual o réptil é superdimensionado e visto como um pesadelo. Não vi o filme, mas boa coisa não deve ser.

Para encerrar, comentando o vídeo que assisti, só posso dizer que o crocodilo realmente existe, não é um monstro de outro mundo, age instintivamente como os outros répteis e está fazendo o seu papel: se alguém se bobear e cair na sua área, ele devora.

Creio que não vai ser fácil conseguir capturar viva essa lagartixa!