Arquivo da categoria ‘Cultura nunca é demais!’

Passada a celeuma sobre a questão do ENEM envolvendo o texto de Simone de Beauvoir, resolvi parar um minuto para pensar sobre o assunto, depois de ter ignorado solenemente as manifestações doentias que li por aí. O parágrafo, textualmente, diz o seguinte:

“Niguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”

Se me permitem a imensa falta de modéstia, apenas lendo o excerto do texto, entendi perfeitamente que ele versa sobre o feminismo. Intui, inclusive, que a expressão “ninguém nasce mulher” se refere à definição da mulher na sociedade, ao papel que esta irá assumir perante os outros, e não à orientação sexual da “fêmea humana”, na definição da própria autora. Consegui, de forma completamente independente, ler o texto de forma isenta e verificar sobre o que ele versa, retirando o sentido que a autora pretendeu dar. Sou inteligente por demais, não?

NÃO!!!

Somente duas condições podem impedir que a pessoa extraia do texto acima transcrito seu exato sentido:

  1. Analfabetismo funcional, aquela condição tão comum na sociedade brasileira, que se caracateriza justamente pela inabilidade de, apesar de formar corretamente as palavras mediante sua leitura, formar uma seqüência lógica e racional a partir de qualquer manifestação escrita; e,
  2. Completa desonestidade intelectual, enfatizando uma figura de linguagem utilizada para embasar um discurso prévio de intolerância e radicalismo.

Infelizmente, há inúmeras pessoas que se enquadram na primeira hipótese, o que depõe negativamente acerca do sistema educacional brasileiro. Se uma pessoa prestes a ingressar na faculdade não conseguir, por seus próprios meios, intepretar um texto tão singelo, certamente estaremos diante de um déficit de preparação e aprendizado que, com todo o respeito, dificilmente pode ser corrigido em algum ponto.

Mas o mais preocupante são aqueles que se enquadram na segunda hipótese. Nestes, incluem-se, sem qualquer sombra de dúvidas, figuras execráveis da vida pública nacional, tais como Silas Malafaia, Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro (se bem que quanto a este último tenho lá minhas dúvidas). O que fazem estes cidadãos é, basicamente, emprestar uma interpretação absolutamente distorcida do enunciado da questão antes transcrita, professando que esta demonstra claramente uma tendência dos órgãos estatais encarregados da educação de crianças e jovens a seguir o que eles mesmos denominam de “ideologia de gênero” ou “gayzismo”, que seriam ferramentas do Estado comprometer a “família tradicional” e, como última conseqüência, estabelecer uma ditadura comunista/socialista. Fazem isto, evidentemente, contando que a grande massa de funcionalmente analfabetos, repetirão “ad nauseaum” estes argumentos torpes e sentirão temor ou descontentamento com as políticas educacionais, pendendo a, para evitar a tal ditatura, entregarem seus votos e darem muito dinheiro aos envolvidos.

E este quadro, por si só, é preocupante. QUALQUER das duas hipóteses que enumero aponta, fatalmente, para um quadro sombrio no futuro da nação. Ou nos tornaremos uma nação de deficientes intelectuais, sobrevivendo com dificuldades aos desafios que o avanço das ciências e da tecnologia nos imporão, ou seremos todos pessoas arrogantemente tendenciosas a interpretar qualquer idéia divergente das pré-estabelecidas com base em preconceitos e irracionalidades, o que dá quase no mesmo.

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Corria solta a notícia de que Seu Tertuliano andava de mal a pior. De fato, algo aconteceu, pois há tempos o velho não aparecia mais na Bodega do Nicanor para comprar seu farnel de rapadura, linguiça, cachaça, erva-mate e fumo em rolo. Alguns diziam que o índio tivera uma crise braba de reumatismo. Outros comentavam que ele foi picado por um jararaca. Um vizinho que havia comprado gado do Seu Tertuliano há pouco tempo falou ao vigário do povoado depois da missa dominical que o velho estava morrendo e que, inclusive, teria recusado atendimento médico.

O sol mal inicia sua aurora e uma Kombi velha já roda pela estrada de chão depois de uma noite de chuva fraca. São poucas curvas, mas muitas coxilhas para serem vencidas. O vento frio da madrugada de primavera entra pela janela do veículo e traz consigo um cheiro de capim molhado misturado ao de zorrilho. Desde a casa paroquial até o sítio de Seu Tertuliano são 18 quilômetros de um caminho vicinal que não possibilita rodar a mais do que 30 km/h. O condutor quase se arrepende da ideia de ir até o moribundo porque não se trata de um fiel frequentador das missas, mas sim de um homem rude, de péssimos hábitos e cuja fama é a de um pecador incorrigível, de um promíscuo que se jactanciou a vida inteira por praticar obscenidades.

O Padre enfim chega ao local indicado. Desce da Kombi e abre a porteira, que estava trancada com uma pequena tramela que quase não mantinha a pesada armação de madeira no lugar. Ele adentra com o veículo na propriedade, apeia e torna a fechar a porteira. O trilho de terra molhada leva até um ponto onde havia uma pequena área descampada, com uma capunga e um forno de barro, quase lindeiros ao casabre com mais de um século de construção. A estranha arquitetura remetia às casas castelhanas, com um toque colonial. O religioso sai do veículo e se depara com um cachorro grande e ignóbil a poucos metros dali, que se entretinha com restos de uma paleta de ovelha, mal dando atenção ao intruso.

A porta não estava trancada e o Padre entra sem bater. O ambiente dentro da tapera não era muito salubre e as janelas estavam fechadas. O odor predominante era de comida velha e fumaça, mas também era possível sentir cheiro de esterco. Os poucos móveis são toscos e antigos. Havia uma chaleira de ferro sobre um fogão à lenha, já sem cor, panelas sujas em uma mesa de pinho e moscas varejeiras voejando pelo ambiente. O soalho de madeira vai rangendo com os passos incertos rumo ao único cômodo de onde vinha luz e no qual repousava o proprietário do latifúndio.

Com os olhos semicerrados, Seu Tertuliano apenas murmura de forma sôfrega.

– Se for bandido pode levar tudo! Se for jornalista, não falo nada! Se for à mando do Nicanor, diga que pago os fiado com boi vivo!

– Calma, Seu Tertuliano. Sou o Padre da comunidade. Soube que está muito doente e vim dar-lhe o sacramento da unção dos enfermos!

Arre! Vai te embora, corvo agourento! Não quero saber de nenhum comedor de hóstia na minha casa! Xô! Vade retro!

Visivelmente irritado, mas pensando em todo o sacrifício de estar ali por uma grande causa, o Padre prossegue sua tentativa de cativar o moribundo.

– Sei que o senhor não foi um homem penitente, pouco temente à Deus e que não possui nenhuma das virtudes cristãs. Mas sei que Ele tem planos para o senhor “lá” em cima! Para isso, preciso encomendar sua alma ao Criador!

Sem compreender a intenção do Padre, Seu Tertuliano faz uma careta interrogativa, oportunizando ao Padre prosseguir.

– O senhor não gostaria de quitar sua dívida com Cristo e poder descansar em paz? Resolver todas as suas diferenças com o Pai Eterno? Conseguir sua passagem para o paraíso? Para isso, o senhor terá de confessar seus pecados. Todos!

– Tchê! Eu só não te mando à merda em respeito à batina que tu veste. E também porque eu não tô podendo nem com as calça…

– Ach, mein lieber gott!

A la fresca! O que Vossa Santidade quer? Pois le digo… eu desrespeitei bem mais do que dez mandamentos!

– Tenho certeza que não, Seu Tertuliano. Acredito que sua alma ainda pode ser resgatada das chamas do orco. Todos merecem salvação, inclusive o senhor!

Quer dizer, entonces, que se eu desembuchá tudo o que aprontei na vida eu posso me livrar do inferno, do dito cujo, do chifrudo?

– Creio piamente que Deus vai perdoá-lo e o senhor não saberá o que é o inferno. Mas desde que se arrependa dos pecados, ja wohl?

Os modos afáveis e o sotaque de alemão do Padre conquistaram a simpatia de Seu Tertuliano, que àquela altura dos acontecimentos, já não tinha forças e tampouco argumentos para rebatê-lo. A visita inusitada e o fato de ter a certeza de que estava definhando relegou ao gaúcho um sentimento de conformismo.

Pois bem, seu Padre! Vô começá pelo fim, já que ele tá perto. Faiz uns dez dia que eu comprei uma égua nova do vizinho, pras lida campeira, sabe como é… Fui dar um banho na bicha lá na sanga e me veio umas comichão… mas a potranca não estava muito acostumbrada e me coiceou duas veiz! A primera foi bem na boca do estômago! E a outra foi direto nas peia… Dói até de lembrar!

O Padre não estava acreditando no que ouvia. Como poderia um homem idoso, com idade para ser seu pai, sodomizar um pobre espécime equino? Mas Seu Tertuliano continuava o fatídico relato.

– O tareco de mijar tá sem serventia… não presta prá nada! Despues, comecei a ter umas queimação no bucho e não consegui mais comer carne. De uns dias pra cá, ando mijando sangue…

– E porque o senhor não foi até o médico ou para um hospital? Deve estar com uma hemorragia interna!

– Tô com 86 anos na paleta e nunca fui ver dotor! E me orgulho disso! Todas as moléstia que tive eu curei com mel e cachaça! Ah… e às veiz eu colocava umas macela no mate, quando aziava o fíguedo…

Seu Tertuliano não conseguiu concluir a frase e começou a tossir como um tuberculoso. O Padre tinha certeza que seu Tertuliano estava morrendo, mas não se sente nem um pouco à vontade para lhe conceder a unção dos enfermos. Como um sacerdote correto, não podia suprimir expedientes eclesiásticos necessários, sob pena de ter de responder por violação de regra canônica à Cúria Metropolitana, como sói acontecer em casos análogos.

– Mas o senhor não deveria fazer essas maldades com os animais! Isso não é normal! Desde quando o senhor pratica bestialismo?

– Bestia o quê?

– Bestialismo… sexo com animais!

– Ah… a barranqueada! Isso eu faço desde que me conheço por gente, lá pelos 10, 11 anos. Comecei com galinha. Despues, fui pras cabrita. Quando o membro já estava desenvolvido, passei a cobri as vaca. As égua foi só depois que fiquei viúvo. Ah… e ovelha eu só pego no inverno…

– O seu caso é muito grave, Seu Tertuliano. Não sei se sua alma será salva!

– Diacho! Mas tu me prometeu! Não vá me despachá para o capeta! Agora eu quero meu lugar no céu!

Um certo clima de impasse se estabelece no recinto por alguns minutos. Sentindo que sua saúde era periclitante, Seu Tertuliano começa a cofiar o bigodão gris e pede ao Padre para lhe alcançar o palheiro.

– O senhor não poderia fumar! Está muito mal de saúde!

– Justamente! Vou fumá porque não me resta outra côsa! Me risca um frósfro e acende logo esse pito, hôme!

Seu Tertuliano dá algumas baforadas e mal consegue segurar o palheiro. O Padre espera pela continuação do enredo nefasto que possivelmente sairá da boca daquele sujeito que não merece a salvação.

– Teve uma veiz, seu Padre, que eu fui à um baile só de perneta! Era uma judiaria ver aquele monte de gente pulando que nem saci, mas me diverti barbaridade! Teve um outro causo lá em Tupanciretã que…

O Padre já nem ouvia com atenção os delírios daquele velho que se esparramava pela cama encardida. Seu Tertuliano divagava sobre rinhas de galo, brigas de adaga e conquistas amorosas, enquanto o vigário passava os olhos pelo quarto em busca de alguma informação. De toda a bagunça que havia, se ateve a um velho guarda-roupas sem portas, uma mesinha com uma bacia d’água, um bacamarte antigo pendurado em um tira de couro na parede e um quadro com um retrato do time do Internacional campeão gaúcho de 1961. Ao se aproximar para ler os nomes dos jogadores, ouviu um berro.

– Padre! Me traz a canha que tá lá na cozinha! Me deu uma sêde…

– Além de fumar, o senhor ainda quer beber álcool? No seu estado de saúde, deveria apenas ingerir água! E ainda não são nem oito horas da manhã!

– Arre! Tomá água faz criar sapo na barriga! Vai lá e busca de uma veiz a caninha, hôme de Deus! Se eu vou morrê, que seja o meu último trago!

Com a garrafa sem rótulo nas mãos, o clérigo derrama dentro de um copo uma pequena quantidade daquele líquido levemente amarelado. Com um misto de censura e estímulo no olhar, Seu Tertuliano faz o visitante encher o copo. O velho peão bebe a cachaça dum sorvo só, fazendo barulho e estalando os beiços ao final.

– Côsa fina… de primera qualidade! Me vê mais um!

– O senhor é dono dessas terras?

– Por supuesto! Comprei depois que ganhei uns pila na política. Côsa que muita gente sabe por aí… o vigário não sabia?

– Não! Sim! Bem, era só para ter certeza! O senhor não teve esposa… filhos?

– Óia… eu fui amigado com uma mestiça, a Honorina, mas isso faiz mais de 50 ano. Ela morreu ainda nova, sabe? Teve bexiga. Despues eu não quis mais sabê de mulé me incomodando. Filho eu não tive. Pelo menos que eu sei…

– E o senhor não pegou varíola também? Não ficou doente na época?

– Se fiquei, eu não sei. Com eu já le disse, sempre me tratei com mel e cachaça…

Julgando que aquele troglodita tivera mais sorte do que juízo na vida, o Padre continua a perguntar.

– E irmãos, o senhor teve?

– Não conheci nenhum. Meus pais eram mui pobres e fui criado pelo meu padrinho. Apanhava de vara de guanxuma e de relho todo o dia. Eu não tive nenhum contato com irmão. Não sei nome e nem se tá vivo…

– Então o senhor é sozinho no mundo?

– É… não que seje uma côsa que me dê orgulho, mas pelo menos pude fazê o que bem quis… prá quê filho? Hay gente demás no mundo!

Para o Padre, essa declaração de Seu Tertuliano foi como luz na escuridão. A ausência de herdeiros era uma informação que não havia cogitado. Nisso, os pensamentos impuros do pároco são interrompidos por uma sucessão de peidos estrepitosos, empesteando o ambiente. A flatulência do moribundo torna o Padre pouco paciente para prosseguir na oitiva de mais histórias escabrosas. Aquilo estava sendo uma insana sessão de tortura.

– Êita, Padre! Acho que acabei me cagando com essa peidança! Me limpa? Ali no ropero tem uns pano de prato!

– Claro que não! Estou aqui para ouvir sua confissão e lhe dar o sacramento! Não quero saber de imundícies!

– Buenas… se o vigário não se importá com o fedor…

O Padre abriu a janela e pôs o nariz para fora. Seu Tertuliano continuou contando histórias e os problemas que sofreu quando era abigeatário, praticando crimes nos dois lados da fronteira. Divagou por alguns minutos e concluiu que pouco importava se fosse dançar com o capeta, porque já havia conhecido o inferno, neste mundo mesmo. Pior não seria.

– Eu tenho de le dizer uma côsa: até que matei pôca gente nessa vida, Padre! Mas sempre em legítima defesa, quando fui segurança de baile ali em Quaraí… tinha índio metido a valente que foi pra faca! E despues, os polícia me aliviava e o juiz da comarca era frequentador da bailanta… entonces, estava tudo em casa!

– Se o senhor já foi julgado pela justiça dos homens, eu não me importo. Daqui a pouco será Deus quem vai julgá-lo!

Aquela sentença proferida pelo Padre deixou Seu Tertuliano ressabiado. Uma nova crise de tosse acometeu o moribundo. Então, pediu ao vigário que alcançasse o penico que estava embaixo da cama. O sacerdote se agachou e pegou pela alça o objeto de metal branco, que estava com mijo estagnado há dias. Seu Tertuliano aproxima o rosto do utensílio e escarra algo purulento. O Padre sente uma ânsia de vômito, mas se controla e defenestra todo o conteúdo pela janela.

– Seu Tertuliano, vou respirar um pouco lá fora…

– Vá tomar uma fresca! Porque aqui drentro a côsa tá feia!

O dia estava bonito lá fora e o Padre caminhou pela propriedade. Percebeu atrás da casa a existência de uma horta abandonada, mas com algumas verduras e legumes vicejando. Viu que havia um curral muito grande, com boas pastagens e uma sanga ao final da descida da coxilha, rodeada por árvores nativas. O vigário gostou bastante daquelas paragens e decidiu que chegara a hora de fazer aquilo que havia planejado. Entrou no quarto e o cheiro parecia ainda pior do que quando chegara. Teve de acordar o veterano, que roncava e respirava com dificuldade.

– Pelo que vi, Seu Tertuliano, sua lista de pecados em vida é muito grande! Sua penitência, caso fosse possível, seria rezar durante dias e noites… mas acho que o senhor não terá tempo para isso!

– E isso é novidade pra mim? Já le disse antes que não fui santo!

– Não vejo como o senhor conseguir seu lugar no céu e obter o perdão divino, a menos que tenha um ato de extrema bondade ainda em vida!

– Ocha! Mas o que eu posso fazê agora, deitado nesse catre, todo cagado…

– Seu Tertuliano, me diga uma coisa! Quero que seja sincero e responda sem pestanejar, até porque tempo é um luxo que o senhor não dispõe…

– Pois pregunte, hôme…

– Já que o senhor não tem herdeiros, suas terras vão ficar com o Estado, com o governo…

– Mas bah! Isso eu não quero!

– Nesse caso, o senhor não deixaria as suas terras para a Igreja?

– Hein?!

– Sim… para que possamos levar adiante projetos em benefício da comunidade, dos carentes? Diga… o senhor concederia essa dádiva para garantir à sua alma o descanso eterno, livre dos agouros das trevas?

Seu Tertuliano demora a responder, mas acaba concordando. Disse que, no fim das contas, se o dinheiro que ganhou para comprar o sítio não foi muito lícito, deveria mesmo era deixar para a caridade. Mas Seu Tertuliano ainda queria fazer um pedido. Uma última exigência para consolidar aquele pacto.

– Padre… vi que mesmo sendo um hôme à serviço da Santa Madre Igreja, o amigo também é… hôme! Ou não é?

– Sim. Sou homem. Por que a pergunta?

– É que… como é que os padre se controla? Não fazem nada? E como fica quando o membro fica mais duro que aspa de touro brasino?

– Eu não posso responder sobre essas coisas, Seu Tertuliano. Os clérigos devotam sua vida à Cristo e renunciamos à todas as tentações carnais. Todas! Tudo é uma questão de fé e de autocontrole!

– Arre! Pois agora é a sua veiz de confessá alguma côsa, Padre! E é melhor que diga algo bem danado, porque senão vô deixá tudo pros milico!

A chantagem imposta pelo esgualepado e nauseabundo Seu Tertuliano não estava entre as expectativas criadas pelo Padre. Ora, o safado queria ouvir dele uma confissão. E das boas. Sentindo que não conseguiria enrolar o velho, o Padre começou a contar uma história.

– Bom… quando eu era adolescente, com 12 ou 13 anos de idade, eu fiz algumas coisas que guris faziam no interior. Depois das brincadeiras normais, nós íamos ao mato para fazer uma espécie de troca de experiências, sabe?

– Sei, sei! A piazada fazia a meia! Rá rá rá! O senhor também fez a meia, hein Padre? Rá rá rá!

– Sim… mas eu não gostava de ser passivo!

– Sei, sei!

– Depois disso, eu nunca mais quis saber de coisas mundanas! Fui para o seminário e me livrei desses fantasmas!

– Mas e lá no tal seminário, Padre… não acontecia côsas parecida?

– Que eu saiba não! Eu só fiquei sabendo que havia circulação de revistas masculinas e que a masturbação era permitida, desde que o indivíduo se penitenciasse!

– A la fresca! Pelo menos vi um Padre confessando pecado! E logo pra mim, o maior pecador da paróquia! Rá rá rá! Já posso morrê em paz!

– Sei que o senhor não contará isso a ninguém…

– E se eu não morrê, Padre? Vai me matar estrangulado? Rá rá rá!!

– Seu Tertuliano, não diga aleivosias! Ninguém acreditaria nisso! Sou um sacerdote respeitável! Tenho conduta ilibada e minha consciência tranquila!

– Buenas, Padre… a Igreja pode ficar com essas terra! Não vou levá nada comigo para o além… mas como vamo punhá no papel isso agora?

Aliviado, o Padre pede licença ao fanfarrão que estava indo à óbito e sai da tapera. Pega o celular e liga para o tabelião da Comarca. Depois de duas horas, aparece o notário com uma máquina de escrever Olivetti. O Padre vai recebê-lo e conversam por cinco minutos antes de entrar na casa. Depois de acertados, o tabelião pergunta ao Seu Tertuliano.

– É isso que o senhor deseja? Deixar suas terras… à Igreja?

– Sim! É isso que eu prometi! Pro governo eu não quero deixá nada!

O tabelião lavra uma escritura de doação em vida da propriedade de Seu Tertuliano em favor de uma irmã “solteirona” do Padre. Àquela hora, já sem forças, Seu Tertuliano já não falava muito, nem respirava direito. Recebeu mais um copo de canha na boca e deixou o palheiro cair no chão. Segurou a caneta com dificuldade e assinou o documento sem conseguir ler, até porque não era muito afeito às letras.

Cumprindo com o prometido, o Padre administrou o sétimo sacramento ao já quase inerte Seu Tertuliano, fazendo a reza litúrgica e ungindo as mãos do enfermo. O notário se despede do Padre e ambos saem para a rua.

Passados alguns minutos, Seu Tertuliano tem a sensação de que está caminhando por um trigal dourado rumo à um pôr do sol brilhante. Avista muitos cavalos pastando em colinas verdejantes e figueiras imensas. Nessa caminhada, encontra Honorina, sua antiga companheira, e muitos outros que não via há tempos. Ele tenta chorar, mas não consegue. Tudo era perfeito.

O Padre volta para o quarto e se certifica que Seu Tertuliano não está mais vivo. Cerra os olhos do defunto, faz o sinal da cruz e sai da tapera, respirando o ar puro do entardecer. Depois de ligar para o serviço funerário mais próximo, começa a planejar mentalmente: precisa colocar abaixo aquele casebre, instalar cercas, construir uma casa adequada… Afinal, vai utilizar o sítio para os próximos retiros espirituais com os velhos colegas de seminário.

Hoje o mundo é muito pequeno. Aquele velho bordão “eta mundão véio sem porteira” poderia ser trocado para “eta mundinho véio sem porteira”. Realmente, não existem mais porteiras; o sistema de comunicação atual possibilita estarmos em vários locais ao mesmo tempo, interagindo com pessoas dos mais diversos locais, compreendendo suas culturas e modos de vida. E o mundo ficou pequeno; a China está a um click, o Nepal está em detalhes no Google Earth, o Botsuana também! E os meios de transporte são razoavelmente rápidos e seguros para, caso você tenha dinheiro suficiente, levá-los a conhecer in loco tudo isto, e não apenas nas janelas do Windows (trocadilho infame).

Mas tentaremos imaginar o mundo ocidental do século XIII…

O mundo era plano…

Existiam dragões e outros seres ruinzinhos no final do plano mundo (mundo plano deve ser chato..outro trocadilho). Não existiam cursos de línguas, não existiam sistemas de transportes confiáveis ou rápidos e principalmente: não se sabia quem estava além do horizonte! Os povos tinham pouco contato; os obstáculos naturais -grandes rios, lagos, mares, cadeias montanhosas- eram os limites entre povos que muitas vezes, nem chegavam a se conhecer. Com estas limitações, desenvolviam-se de formas muitas vezes bastante diferentes, costumes diferentes, línguas certamente diferentes. As limitações não eram só de ordem técnica (transporte), também existiam as limitações dogmáticas culturais devido as imposições culturais católicas.

Mas eis que um cara, sim ele foi ou ainda é o cara, resolve desbravar este mundo. Nicola Polo, comerciante de Veneza, e seu primo Mafeo, saem em busca da terra de Cipang e outros lugares míticos, que se ouviam falar nos contatos com os povos do Oriente Médio. Saem em busca de riquezas (sim, um dos motores da evolução e combustível das descobertas: dinheiro…valor único?!?) e as encontram. Não só na forma de especiarias, ouro e prata. Encontram sociedades com organização muito avançada em relação aos ocidentais, industrias, sistemas comerciais, tecnologia. Também se deparam com povos mais primitivos e muitos perigos. Mas conseguem realizar um trabalho formidável de relações públicas, servindo como embaixadores voluntários do ocidente, que acabam conseguindo retornar ao ocidente após nove anos de viagens e descobertas neste novo mundo. Êita espírito empreendedor!

Em 1271 Nicola e Mafeo retornam ao ocidente, para relatar as suas descobertas e tentar, junto ao Vaticano (??!!) apoio para nova viagem. Nicola aproveita e leva seu filho Marco (este também é o cara) nesta nova viagem ao oriente.

Marco Polo acabou mais notabilizado que seu pai e seu tio pois relatou esta fantástica viagem no “Livro das Maravilhas”, escrito enquanto estava na prisão, e de inegável valor para o ocidente. É difícil imaginar como este trio de loucos e diferentes ocidentais ganharam a confiança de Kublai Can, grande guerreiro e imperador Mongol (que dominava todo o leste e sul da Ásia nesta época). Marco inclusive foi nomeado embaixador do Grã Cã em uma das províncias. Normalmente este era um cargo dos filhos do Grã Cã, mas Marco Polo também conseguiu este feito!

Só para ilustrar os ganhos desta viagem para o ocidente, lá os Polo tiveram contato com o papel moeda, a pólvora, as industrias de seda, o carvão mineral, tecnologia naval de ponta (as naus orientais desta época eram 5 vezes maiores que as naus dos descobridores ibéricos…dois séculos após!).

Muitas vezes, a forma de entrar em contato com os povos era na forma de guerras e poder para subjugá-los. Nicola, Mafeo e Marco Polo atuaram de forma totalmente diferente. Levaram a fé cristã sem a espada, trouxeram tecnologia e riquezas sem derramar sangue, aprenderam novas idéias e plantaram as primeiras sementes do renascimento na Europa. Certamente os relatos da aventura e das descobertas dos Polo levaram um sopro de imaginação produtiva e criativa para um ocidente absorto em dogmas religiosos e travado em suas aspirações de evolução.

Eu acredito que o renascimento começou desta louca aventura. Mas pouco fala-se dos Polo nas aulas de história.

E se você tem pretensões de igualar o que os Polo trouxeram para a humanidade em sua época, monte uma nave espacial no fundo do seu quintal e saia pelo espaço a desbravar novos povos e novas culturas. Mas volte para nos relatar!

Só bebendo.

Publicado: 14/07/2008 por BigDog em Cultura nunca é demais!, Nem fodendo...
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Não gosto muito de filmes de super-heróis, especialmente porque o roteiro é sempre uma variação sobre aquela manjada história do grande problema a ser resolvido, com um arquiinimigo que descobre a fraqueza do herói no meio do caminho e quase o tira completamente de ação, mas no final tudo dá certo, com todos vivendo felizes para sempre. Foi por isso que me interessei em assistir Hancock, um filme com uma proposta diferente: o herói em questão é um alcoólatra inveterado, que causas prejuízos incalculáveis para resolver as crises com criminosos, mais atrapalhando que ajudando. Por isso, é odiado por todos e perseguido pela justiça. Claro que no final iria rolar uma reabilitação, Hancock deixaria de ser um bebum gambá dependente químico – ou qualquer outro jargão "politicamente correto" que se aplique ao caso, não vou quebrar a cabeça com isso – mas este final açucarado certamente não retiraria a possibilidade de boas tiradas cômicas no decorrer do filme. Ao menos foi o que imaginei.

Ledo engano… O filme não consegue decolar nem para um lado, nem para o outro. Não chega a ser hilário, mas também não é uma história clássica de super-heróis, que certamente agradaria aos fãs do gênero. Quando você sai do cinema achando que poderia ter feito melhor, mesmo não sendo roteirista, mesmo sendo um camarada medianamente inteligente – ou, visto do outro ponto de vista, medianamente burro – é porque algo está definitivamente errado. Não sei se é influência da era politicamente correta em que vivemos, mas diversos ganchos são perdidos, possibilidades não são exploradas. O filme tinha tudo para ter tiradas de humor mais corrosivas, detonando situações incômodas do dia-a-dia moderno-corporativo-dinheirista, caprichando mais nas bobagens cometidas pelo protagonista sob o efeito do goró, enfim, não sendo tão policiado do ponto de vista da nova ordem moral reinante. Na verdade, a única piada realmente engraçada do filme é escatológica e gratuita, e faz o sujeito rir apenas para não perder o dinheiro do ingresso. Para não entregar o roteiro, direi apenas que é anatomicamente impossível de acontecer. Sobre a parte da reabilitação, então, não dá nem para falar. Totalmente dispensável.

Decaindo…

Publicado: 17/06/2008 por BigDog em Cultura nunca é demais!

M. Night Shyamalan surpreendeu o mundo quando, em 1999, lançou o magistral “O Sexto Sentido”, aquele filme com um dos melhores finais de todos os tempos. Era de se imaginar que, frente a tal obra prima, o interesse pelo diretor crescesse e, ao menos de minha parte, se esperasse filmes tão bons ou até mesmo melhores. Confesso que fiquei meio decepcionado quando assisti “Corpo Fechado”, mas tudo bem, não se pode exigir 100% de acerto em uma área tão difícil. “Sinais” e “A Vila” foram, na seqüência, decepções ainda maiores, fiquei com a sensação que o diretor havia perdido a mão, ou que “Sexto Sentido” fosse um acerto único na carreira, aqueles eventos extraordinários que só acontecem uma vez na vida.

Esta semana, dei a última chance a Shyamalan. Fui assistir “O Fim dos Tempos“, especialmente porque a crítica estava dizendo maravilhas do filme. Pensei com meus botões, “de repente o cara acertou o rumo novamente”. E, mais uma vez, dei com os burros n’água. Passar duas horas em uma sala de projeção, a R$ 13,00, para ver gente morrendo não é o meu ideal de diversão. Digo isso porque, no final das contas, é só isso: gente morrendo. Você até espera alguma explicação fenomenal para os acontecimentos do filme, fica aquela sensação de que, alguma hora, alguma coisa vai acontecer. Só que não acontece nada, tudo volta ao normal, todos vivem felizes para sempre, a exceção de quem morreu pelo caminho. O pior de tudo é saber, lá pelo meio do filme, a explicação do enredo e simplesmente não acreditar que possa ser tão simples, ainda mais que a teoria parte de um personagem maluco, fanático por cachorro-quente.

Minha teoria é de que o motivo da badalação em torno do filme seja a questão ecológica, tão em voga nos dias atuais. Não vou ficar aqui contando enredo de filme, mas o fato é que, se não fosse a ênfase na questão do “aviso das plantas”, duvido que alguém se dispusesse a sequer comentar o abacaxi – já que estamos falando de vegetais – cinematográfico que se apresenta. Para piorar, o canastrão protagonista do filme, Mark Wahlberg, no papel de Elliot Moore, dá, simplesmente, um show de como NÃO atuar. As emoções que deveriam ser passadas por seu personagem são caricatas demais, as expressões são totalmente plastificadas. Acho que nem o Stalone faria pior. Não bastasse, o coadjuvante é ninguém menos que John Leguizamo. Sim ele mesmo, o ator de “O Peste“. Na minha opinião, não vale a pena perder tempo com esse filme. Vá por sua conta e risco. Mas que fique bem claro: eu avisei!

Por Felipe Wolfarth

Desde os primeiros anos do novo milênio estamos percebendo no mundo do futebol um inusitado fator ainda inominado e em constante aperfeiçoamento, que tem levado equipes com menor capacidade técnica e financeira a derrotar rivais poderosos e obter conquistas outrora inimagináveis. Segue uma breve digressão histórica da questão primordial do futebol, que é a obtenção da vitória e os meios encontrados para vencer nas adversidades.

Antigamente, excetuando-se as incipientes ligas nacionais, em poucos momentos havia intercâmbio de culturas táticas no futebol. Competições envolvendo clubes eram raríssimas e quase sempre muito onerosas para os clubes amadores e semiprofissionais existentes até a década de 30.

A FIFA, pensando no desenvolvimento do futebol, instituiu um torneio mundial de futebol envolvendo seleções nacionais, que aconteceria a cada quatro anos, a partir de 1930. Foi a gênese do futebol organizado e o fim definitivo do amadorismo.

Com isso, surgiu a miscigenação de estilos que, até então, era simplificada por: técnica + truculência dos castelhanos; técnica + malandragem dos brasileiros; e, técnica + estratégia dos europeus.

Com o desenrolar dos mundiais, alguns países, principalmente os menos dotados de potenciais técnicos, passaram a copiar estilos vitoriosos, visando o aprimoramento de suas equipes. À medida em que algumas seleções protagonizavam belas apresentações nas Copas do Mundo, foram sendo adotados modelos que permaneciam até quando outro esquema tático trouxesse inovações.

Naquelas priscas eras, ocorreram poucos, porém importantes resultados surpreendentes: Uruguai 2 x 1 Brasil, na final Copa do Mundo de 1950, e Alemanha 3 x 2 Hungria, também na derradeira contenda de 1954.

Em 1950, o Brasil vinha de goleadas fantásticas nos jogos anteriores à final (7 x 1 na Suécia e 6 x 1 na Espanha), havendo um inevitável clima de otimismo que contagiou torcedores, imprensa e o próprio selecionado nacional. Até hoje, nem mesmo os uruguaios entendem como venceram aquela partida, disputada no Maracanã diante de 200 mil expectadores.

Também a Hungria, em 1954, vinha de um período de invencibilidade de 31 jogos quando perdeu para a Alemanha na final da Copa, mesmo tendo surrado os próprios alemães por 8 x 3 na primeira fase daquele mundial. Inexplicável até hoje, para alemães e húngaros.

Tais imprevistos eram exceção à regra do favoritismo declarado que vigia à época. Quando uma equipe de futebol era favorita ou possuía bons jogadores do ponto de vista técnico, haveria de ganhar a partida. Algo como ocorre no basquete.

Entre 1957 e 1964, contando com Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Vavá, Amarildo, os brasileiros eram realmente os melhores.

Quando a seleção brasileira venceu a Copa do Mundo de 1970, no México, com uma constelação de craques que jogava por sintonia fina derrotando a Itália por 4 x 1 na finalíssima (1), os europeus se perguntaram: como faremos para pôr fim à supremacia técnica dos sul-americanos se nossos atletas não conseguem ser tão bons tecnicamente? A saída encontrada e desenvolvida à curto prazo foi a preparação física aliada à utilização de esquemas táticos que exigissem a constante ocupação de espaços no campo.

A seleção da Holanda, treinada por Rinus Michels, foi o primeiro exemplo prático do novo pensamento europeu, ao maravilhar o mundo com o esquema carrossel holandês, no qual os jogadores não guardavam suas posições, ora atacando, ora defendendo, com seguidas variações táticas e com ampla utilização do overlaping (lançamento para o ponto futuro). Inclusive, Michels afirmou anos mais tarde que a implantação do complexo esquema tático somente fora possível pela inteligência incomum dos seus atletas.

Coincidentemente, algumas das vítimas da laranja mecânica na Copa de 1974 foram uruguaios (2 x 0 na estréia), argentinos (4 x 0 na segunda fase) e brasileiros (2 x 0 na semifinal). Show de bola e de objetividade de atletas verdadeiramente foras de série para a época (2).

Registre-se, ademais, que os holandeses já eram vencedores no âmbito clubístico, em especial com quatro conquistas seguidas de Ligas dos Campeões da Europa no início da década de 70 (3).

Apesar de tudo isso, não superaram a obstinação pela vitória e o vigor físico dos alemães na derradeira pugna do mundial de 1974 (derrota por 2 x 1), suplantando aquela que foi a maior inovação tática de todos os tempos, que era extremamente avançada para o momento, no qual a Seleção brasileira, por exemplo, ainda atuava com o arcaico 4-3-3.

Também a Polônia conseguiu excelentes resultados utilizando um esquema que formava blocos de ataque e defesa que possibilitou a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1972. Na Copa do Mundo de 1974, os poloneses obtiveram 6 vitórias em 7 jogos, dentre as quais um 3 x 2 na Argentina, 2 x 1 na Itália e 1 x 0 no Brasil, terminando o torneio no terceiro posto. Somente foi derrotada na semifinal pela anfitriã e campeã Alemanha por um apertado 1 x 0.

Sintetizando: as vitórias da Alemanha na Copa do Mundo de 1974, da Argentina em 1978 (4) e da Itália em 1982, sedimentaram o conceito do futebol-força que foi elaborado para causar danos no estigma técnico e vencedor dos sul-americanos, especialmente dos brasileiros, que viam sua capacidade criativa ser insuficiente para vencer a preparação física.

Em 1986, lampejos de técnica proporcionadas por Maradona puseram luzes de pirilampos no túnel galgado pelo esporte bretão, que, afinal, não representaram quase nada depois que a Alemanha (1990), Brasil (1994) e França (1998) venceram Copas do Mundo jogando um futebol que visava exclusivamente resultados.

Quando a Seleção brasileira venceu a Copa do Mundo de 1994 jogando um futebol defensivo e pragmático, houve uma ruptura definitiva de tudo aquilo que existia em torno da dissensão técnica x tática.

Foi o final de qualquer esperança de ver a retomada do futebol romântico, aquele baseado unicamente na técnica, refinamento, plasticidade e busca frenética de gols.

A postura das equipes do mundo todo passou a ser, salvo raras exceções: evitar o gol do adversário usando atletas toscos, marcar implacavelmente, treinar exaustivamente as bolas paradas e, quiçá, fazer um gol para depois fechar-se defensivamente e garantir o 1 x 0. Foi-se o belo, o onírico. Restaram a simplicidade, o pragmatismo, a preparação física e o perfeccionismo tático como herança da evolução futebolística ao longo de um século de competições.

Mas, apesar de tudo isso, os apreciadores do futebol bem jogado não deixaram de acompanhar o esporte, o qual prossegue sua sina de cativar e apaixonar a cada dia milhares e milhares de novos adeptos. O surgimento dessa nova dinâmica tática possibilitou um maior acesso dos países e clubes periféricos às competições de alto nível, sem que isso represente apenas participações honrosas. Todos passaram a ter condições de vencer. Nada ficou impossível, pois a técnica foi suplantada pela organização e pelo planejamento.

A seleção brasileira foi protagonista dessa nova ordem estabelecida. Vamos aos fatos.

Em 2000, no ápice de uma crise técnica sem precedentes, após a derrota contundente para a França na final da Copa de 1998 (3 x 0), houve uma escassez momentânea de ídolos e de brilhantismo, amplificada pela eliminação da Seleção olímpica frente Camarões, em Sydney (5).

Paralelo à isso, os brasileiros tiveram uma trajetória negativa sem precedentes nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 sofrendo 6 derrotas, algumas das quais para adversários que nunca haviam superado o Brasil em certames idênticos (6). Igualmente, o Brasil foi eliminado pela desprezível seleção de Honduras na Copa América de 2001, com derrota por 2 x 0, em um dos maiores fiascos da história do futebol contemporâneo.

A troca constante de treinadores (Wanderley Luxemburgo, Émerson Leão, Candinho e Luiz Felipe Scolari) exemplifica o momento de confusão vivida em um período de poucos meses.

Ao mesmo tempo em que conseguiu a vaga na Copa de 2002 na base da superação, em mero 3º lugar (atrás da Argentina e do Equador), Scolari providenciou mudanças na filosofia de trabalho que campeava nos grupos canarinhos.

Formou-se uma família na Seleção brasileira e o planejamento foi minuciosamente imposto por Felipão. Poucos acreditavam que o Brasil desbancaria os favoritos do momento – França e Argentina – e outros postulantes ao título (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha). Pela primeira vez em muitas Copas do Mundo (talvez desde 1958) que o país não figurava como favorito ao título, até porque seus melhores atletas não vinham de boas temporadas na Europa.

Ronaldo vinha da convulsão de 1998 e seguidamente acometido de moléstias. Rivaldo estava decadente e opaco. Ronaldinho Gaúcho era uma promessa maculada pela eliminação vergonhosa nos Jogos Olímpicos de 2000.

O resto do time-base era formado por jogadores medianos. Marcos, um regular goleiro do Palmeiras. Cafu, um bom preparo físico. Edmílson, Lúcio e Roque Júnior eram zagueiros de clubes europeus emergentes. Roberto Carlos estava marcado pela preguiça e pelas bombas à esmo. Gilberto Silva e Kléberson eram ilustres desconhecidos. Denílson, um exímio driblador, mas sem qualquer efetividade. E Juninho Paulista, um corpo desprovido de sustentação.

Enfim, eram atletas que não gozavam da simpatia nacional, relegada exclusivamente ao choro de Romário, atleta que fora deixado de lado por Scolari por alegada falta de comprometimento com o grupo.

As características básicas para integrar a Seleção brasileira foram assim definidas: união, disciplina, humildade e pegada. E, assim, com a desconfiança geral do povo, o Brasil voou para a Coréia do Sul.

Em 2002 houve uma Copa interessante. Na estréia, Senegal venceu por 1 x 0 a França, favoritíssima ao título. Depois, a França empatou sem gols com o Uruguai e caiu estatelada frente a Dinamarca por 2 x 0. Foi eliminada na primeira fase e não marcou sequer um gol. Pecou pela soberba e pela falta de renovação do grupo campeão de 1998.

Já a Argentina perdeu para a Inglaterra por 1 x 0 e empatou com a Suécia em 1 x 1. Também foi eliminada na primeira fase, castigada pelo azar e pelas escolhas equivocadas do treinador Marcelo Bielsa.

Outros favoritos foram sendo defenestrados do torneio aos poucos: Portugal, igualmente na primeira fase, ao perder para a Coréia do Sul por 1 x 0. Itália, nas oitavas-de-final, também morta pelos coreanos, por 2 x 1 no golden goal. Espanha, nas quartas-de-final, terceira vítima fatal do implacáveis sul-coreanos, nos pênaltis.

Enquanto isso, o Brasil seguia sua trajetória sem percalços no mundial, vencendo todos os seus adversários: Turquia (2 x 1), China (4 x 0), Costa Rica (5 x 2) e Bélgica (2 x 0).

Nas quartas-de-final, houve o confronto mais difícil, contra a Inglaterra de Beckham, Owen e Scholes. Com grandes atuações individuais de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, aliada à aplicação tática imposta por Felipão, o Brasil venceu os ingleses por 2 x 1, de virada.

Na semifinal, 1 x 0 na Turquia. E, na grande final, o duelo mais aguardado da história das Copas do Mundo, mas totalmente inesperado para 2002: Brasil pentacampeão com um 2 x 0 na Alemanha.

A Seleção brasileira sobrou fisicamente na competição, vencendo seus 7 jogos sem necessitar de prorrogação. Superou as táticas adversárias e ainda impôs momentos de alguma técnica. Marcou 18 gols e sofreu 4. Foi o melhor desempenho, em termos numéricos, de uma seleção campeã do mundo em todos os tempos. Campeão com alma e coração.

Além disso, a Copa do Mundo de 2002 apresentou uniformidade dos esquemas táticos utilizados pelas 32 seleções, com poucas variações entre o 4-4-2 e o 3-5-2, aliado à surpresa no resultado final de algumas partidas: nada menos do que 22 dos 64 jogos tiveram resultados inesperados. As equipes do Senegal, Estados Unidos, Coréia do Sul e Turquia foram as maiores zebras, todas atingindo as quartas-de-final da Copa (7). Foi um sinal dos tempos.

Mas a lição que deve ser extraída da Copa do Mundo de 2002 é a de que uma Seleção (ou clube) só vai vencer competições com planejamento, com entrega, com aplicação tática, com humildade e apego aos detalhes de cada partida. Um time técnico pode vencer um jogo, mas não um campeonato. Só um grupo comprometido com o objetivo poderá manter-se vencedor e impor hegemonia de conquistas.

Todo esse escorço histórico serve como referência para apontar as causas da nova dinâmica do futebol. No momento em que os resultados passam a ser inesperados e a ousadia tática não é suficiente para vencer partidas ou competições curtas, temos um novo elemento que distingue equipes de futebol. Alguns preferem chamar de temperamento ou entrosamento. Muitos afirmam que são times focados no objetivo. Outros dizem ser espírito de equipe. De fato, são equipes com alma vencedora, algo que supera a dimensão material enfrentada.

E tudo isso debelou-se em 2004, que foi um ano pródigo em surpresas. Algumas equipes sem qualquer tradição ou técnica dominaram as competições realizadas em 2004, no qual aconteceram, ao menos, 8 surpreendentes aparições:

– A seleção da Grécia, que foi campeã européia ao derrotar Portugal (de Felipão) por 1 x 0 em Lisboa, superando França e República Tcheca nas fases anteriores;

– Once Caldas (COL), que arrebatou a Libertadores da América na final contra o Boca Juniors, tendo eliminado o São Paulo na semifinal;

– Porto (POR) e Monaco (FRA), que fizeram uma improvável final de Liga dos Campeões da Europa vencida pelo clube português por 3 x 0;

– Santo André, que conquistou a Copa do Brasil ao vencer o Flamengo no Maracanã por 2 x 0, única conquista do clube até hoje;

– São Caetano, que tornou-se campeão paulista ao derrotar na final o Paulista, da cidade de Jundiaí, o qual havia sido campeão da Copa do Brasil no ano anterior;

– Valencia (ESP), que cumulou os títulos de campeão espanhol e da Copa da UEFA;

– Ulbra, vice-campeã gaúcha, surrando o vilipendiado Grêmio na semifinal pelo placar de 3 x 1 (8);

– E, por fim (por que não?), a Seleção brasileira, jogando com sua equipe B, derrotando a Argentina nos pênaltis na final da Copa América disputada no Peru.

Importante ressaltar que a cada ano temos mais e mais surpresas acontecendo no cenário futebolístico. O que era para ser exceção virou regra: equipes pequenas e médias vencem campeonatos difíceis e, por outro lado, clubes grandes e tradicionais protagonizam vexames.

Obviamente que o investimento no futebol, principalmente em estrutura e em aquisição de atletas é bastante eficaz para a obtenção de vitórias. Mas, por outro lado, temos que é inegável que atletas de renome sem motivação, sem identificação com o clube e sem interagir com o grupo, não são suficientes para levar um time às alturas. Logo, a alma, o espírito de equipe é elemento que faz fluir o jogo, que faz Davi derrotar Golias.

Com efeito, é necessário gizar que o enfoque adotado neste artigo é gnoseológico (conhecimento) e metafísico (ser ou não ser), não sendo apenas voltado para a constatação óbvia de que quem vence é o melhor. O futebol é um esporte único, onde os melhores necessitam provar sempre, em campo, que merecem vencer.

Aliado à isso, temos que a aparente falta de investimento no futebol brasileiro não está conduzindo o país à estagnação técnica. Pelo contrário. O Brasil exportou mais de mil jogadores para o exterior em 2007 e seus clubes continuam vitoriosos em competições internacionais. O curioso é que esse êxodo tem sido vital para os clubes nacionais, uma vez que o dinheiro oriundo das transações garante a manutenção do salários, da estrutura e da formação de futuros craques nas categorias de base. Além disso, à medida em que exporta jogadores jovens, os clubes brasileiros buscam atletas mais consagrados que passam por períodos de relativa desvalorização no exterior. O que existe no Brasil é uma eficiente máquina mercadológica a serviço do futebol.

Ao mesmo tempo, o crescimento financeiro do mercado do futebol brasileiro possibilita também a importação de jovens valores estrangeiros, especialmente da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Colômbia. Em alguns casos, antes das promessas dos vizinhos rumarem diretamente para a Europa, são testados no cenário tupiniquim, que é mais exigente que o de seus respectivos países. Não raro ocorrem casos de grandes clubes brasileiros possuírem 4 atletas estrangeiros durante uma mesma temporada, mesmo podendo utilizar apenas 3 deles durante um jogo.

Neste talante, interessante confrontarmos a situação dos estrangeiros no futebol brasileiro com algumas ligas européias. Clubes da Itália, Espanha, Inglaterra e França possuem em seus grupos mais de 50% de estrangeiros, oriundos sobretudo da América do Sul, África e de países periféricos da Europa. Tal situação denota uma fragilidade dos europeus ocidentais em gerar novos jogadores, modificando a forma de jogar até mesmo de suas seleções nacionais.

Aliás, o que se espera (inclusive já ventilado pela FIFA) é o fim gradativo das seleções nacionais da Espanha e da Inglaterra, pois percebe-se uma ausência de jogadores de alto nível nos setores de meio-campo e ataque dos selecionados desses países, diretamente ligada ao pouco investimento na base, incapaz de formar atletas do mesmo quilate dos sul-americanos e africanos. Logo, esses clubes não geram jogadores nativos e suas seleções naturalizam estrangeiros.

Porém, há uma exceção na Europa. Apenas a Itália vem conseguindo manter a identidade nacional de seu futebol, pois tradicionalmente seus jogadores possuem espírito patriótico e alma vencedora. Como exemplo recente, temos a seleção italiana de 2006. Com lideranças técnicas em cada setor da equipe (Cannavaro, Pirlo e Totti), juntamente com seus gladiadores-trogloditas (Zambrotta, Materazzi, Grosso, Gattuso, Perrotta, De Rossi e Toni) venceu a última Copa do Mundo graças à união e o espírito vencedor contagiante do grupo.

Enfim, no mesmo ano tivemos o melhor exemplo a ser citado nos últimos 20/30 anos de futebol. Embora muitos tentem esquecer, quiçá menosprezar, em 2006 o Inter venceu a Libertadores da América, superando o São Paulo na finalíssima, e o Mundial de Clubes da FIFA, derrotando o poderosíssimo Barcelona. Já em 2008, o Colorado venceu o Torneio de Dubai dando uma aula de determinação e aplicação tática na Internazionale de Milano, até então invicta por vários jogos na Europa, tendo em seu grupo atletas de várias seleções top.

Qual é a explicação para essa senda de vitórias de um clube tido como grande apenas no cenário brasileiro, mas que não vencia nada há décadas? Como justificar o fato de que o Inter, clube de estrutura limitada, tenha superado adversários infinitamente mais poderosos do ponto de vista financeiro e técnico?

Uma análise superficial dos resultados atuais do futebol permite enxergar uma quantidade incrível de zebras em todos as competições.

As idiossincrasias contidas em cada time de futebol podem ser controladas em benefício do todo. A repetição de movimentos e o esforço pleno em prol de um benefício comum é a resposta. Mais do que isso: ter alma. Essa palavra tão pequena, contendo 4 letras, é praticamente inexplicável do ponto de vista científico. Ter alma, no futebol, muitas vezes é efêmero. Uma hora acaba. Mas, analisando-se todo o contexto exposto, trata-se do nó górdio que deve ser desvendado para possibilitar a descoberta da fórmula vencedora.

Recado para os co-irmãos da freguesia lindeira: se o clube é brasileiro, não basta ter alma castelhana. Para quem já morreu tantas vezes, a mudança de nacionalidade da alma parece ser uma explicação bastante convincente.

Ainda bem que o Sport Club Internacional tem alma brasileira!


(1)- Seleção brasileira da final da Copa do Mundo de 1970: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino.
(2)- Time-base da Holanda na Copa do Mundo de 1974: Jongbloed, Suurbier, Rijsbergen, Jansen, Krol, Haan, Van Hanegem, Neeskens, Cruyff, Rep e Rensenbrink.
(3)- O Feyenoord, em 1970, e o Ajax, em 1971, 1972 e 1973, venceram a Liga dos Campeões da Europa, denotando toda a supremacia tática holandesa na época.
(4)- Os argentinos venceram a Copa de 1978 amparados por forças ocultas e pela complacência da FIFA. Quem nunca ouviu falar do jogo em que a Argentina venceu o Peru por 6 x 0, quando necessitava fazer 4 gols de diferença para ir à final da Copa de 1978 e eliminar o Brasil no saldo de gols?
(5)- Nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, o Brasil foi derrotado por Camarões pelo placar de 2 x 1, no golden goal, mesmo com 2 atletas a mais em campo.
(6)- A Seleção brasileira sofreu 6 derrotas em 18 jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, contra o Paraguai 2 x 1, Chile 3 x 0, Equador 1 x 0, Uruguai 1 x 0, Argentina 2 x 1 e Bolívia 3 x 1, todos disputados fora do Brasil.
(7)- Na Copa do Mundo de 2002, a Turquia finalizou em 3º lugar, Coréia do Sul em 4º, Senegal em 7º e Estados Unidos em 8º.
(8)- Também podemos registrar que em 2004 aconteceu não uma façanha, mas algo que está se tornando assaz corriqueiro, que foi o segundo rebaixamento do Grêmio para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Os gremistas vivenciaram um exemplo de falta de planejamento, de incompetência administrativa e de total ausência de comprometimento dos atletas, que pareciam mais interessados nas orgias homossexuais que praticavam no suntuoso ônibus do clube, único orgulho do ex-presidente Flávio Obino.

Há muito tempo eu venho procurando em sites ou revistas do gênero uma relação completa contendo os maiores jogadores da história do Sport Club Internacional. Em vão. Apenas encontro listas com 15 ou 20 nomes, o que para mim não basta.

Sendo assim, depois da conquista da Tríplice Coroa, entendi que havia chegado o momento de fazer uma justa homenagem a todos aqueles que engrandeceram o nosso amado clube neste quase um século de história.

Minha intenção inicial era elaborar uma lista dos 100 maiores atletas Colorados da história. Porém, vi que poderia haver injustiça com muitos bons jogadores que influenciaram decisivamente em momentos importantes da história do clube, desde 1909 até 2007.

Depois de dias e dias em busca de informações sobre nomes, datas, jogos, atuações, números, conquistas, enfim, consegui relacionar 120 jogadores ilustres que estiveram a serviço do Inter.

Muitos hão de discordar das escolhas que fiz, ponderando o esquecimento de um ou de outro atleta, além de pleitear a exclusão de outros. Entretanto, com absoluta certeza, ao menos os 50 maiores Colorados estão arrolados abaixo pelos seguintes critérios: tempo a serviço do clube, participação efetiva em conquistas, qualidade técnica indiscutível ou atuações decisivas.

Obs.: Em ordem alfabética, pelo nome que o atleta ficou conhecido, incluindo o período no qual defendeu as cores do Internacional. Alguns jogadores estiveram em mais de um momento no clube, estando os períodos separados por “/”.

Abigail (1942-1950)

Adãozinho (1944-1951)

Ademir Kaefer (1981-1985)

Adriano Gabiru (2006-2007)

Aguirregaray (1988-1989)

Alex (2004-2007)

Alexandre Pato (2006-2007)

Alfeu (1959-1962)

Aloísio (1983-1988)

Amarildo (1987)

Assis (1940-1948)

Ávila (1941-1948)

Barros (1923-1929)

Batista (1974-1980)

Bedionda (1909-1919)

Benítez (1977-1983)

Bibiano Pontes (1965-1975)

Bira (1979-1980)

Bodinho (1951-1958)

Bolívar (2003-2006)

Bráulio (1965-1974)

Caçapava (1973-1979)

Caíco (1992-1996)

Canhotinho (1951-1959)

Carlitos (1938-1951)

Carlos Kluwe (1909-1919)

Carlos Ribeiro (1921-1932)

Ceará (2006-2007)

Célio Silva (1991-1993)

Chico Spina (1979-1980)

Chinesinho (1955-1958)

Christian (1992 / 1996-1999 / 2007)

Cláudio Duarte (1969-1977)

Cláudio Mineiro (1979-1980)

Claudiomiro (1967-1974 / 1979)

Clemer (2002-2007)

Daniel Carvalho (2001-2004)

Dario (1976-1977)

Dorinho (1964-1975)

Dunga (1981-1984 / 1999)

Edinho (2003-2007)

Edu Lima (1988-1990)

Élson (1992-1995)

Élton (1968-1970)

Enciso (1996-2000)

Ênio Andrade (1949-1951)

Escurinho (1970-1977)

Fabiano Souza (1996-2001)

Fabiano Eller (2006)

Fábio Rochemback (2000-2001)

Falcão (1971-1980)

Fernandão (2004-2007)

Fernández (1991-1993)

Figueroa (1971-1977)

Flávio Minuano (1961-1964 / 1975-1976)

Florindo (1951-1959)

Gainete (1962-1964 / 1966-1971)

Gamarra (1995-1997)

Geraldão (1982-1984)

Gérson (1992-1993)

Gilmar (1980-1985)

Hêider (1987-1989)

Hermínio (1971-1976)

Iarley (2006-2007)

Índio (2006-2007)

Ivo Diogo (1960-1964)

Ivo Winck (1942-1950)

Jair (1974-1981)

Jerônimo (1950-1960)

João Carlos (1979-1980)

Jorge Wagner (2005-2006)

Kita (1984-1986)

Lambari (1962-1968)

Larry (1954-1961)

Lúcio (1998-2000)

Luiz Adriano (2006)

Luiz Carlos Winck (1981-1989 / 1991 / 1994)

Luiz Fernando Flores (1986-1988)

Luizinho (1949-1960)

Lula (1974-1977)

Manga (1974-1976)

Márcio Santos (1991-1992)

Marinho Peres (1976-1977)

Mário Sérgio (1979-1981)

Marquinhos (1991-1992)

Maurício (1988 / 1992)

Mauro Galvão (1979-1986)

Mauro Pastor (1979-1984)

Nena (1942-1951)

Nilmar (2003-2004)

Nílson (1988-1989)

Norberto (1986-1989)

Odorico (1950-1957)

Oreco (1950-1956)

Paulinho (1950-1953)

Paulo César Carpegiani (1969-1977)

Pinga (1984-1987 / 1991-1993)

Rafael Sobis (2004-2006)

Rentería (2005-2006)

Rúben Paz (1982-1986)

Rui Motorzinho (1939-1945)

Russinho (1939-1945)

Sadi (1960-1970)

Salvador (1950-1955)

Sapiranga (1960-1964)

Scala (1961-1971)

Sérgio Galocha (1969-1972)

Sérgio Lopes (1961-1962)

Silveira (1955-1965)

Silvinho (1981-1986)

Sylvio Pirillo (1938-1939)

Taffarel (1985-1990)

Tesourinha (1939-1949)

Tinga (2005-2006)

Tovar (1968-1974)

Vacaria (1971-1976)

Valdomiro (1968-1980 / 1982)

Vares (1915-1916)

Villalba (1939-1943 / 1946-1948)

Wellington Monteiro (2006-2007)