Sobre como a capacidade de pensar foi substituída pela mensagem de WhatsApp

Publicado: 13/05/2020 por BigDog em Isto é Brasil..., Populítica

Da Wikipedia:

Na mitologia grega, Panaceia (ou Panacea em latim) era a deusa da cura. O termo “panacéia” também é muito utilizado com o significado de remédio para todos os males.

Asclépio (ou Esculápio para os romanos), o filho de Apolo que se tornara deus da medicina, teve duas filhas a quem ensinou a sua arte: Hígia (de onde deriva higiene) e Panaceia. O nome desta última formou-se com a partícula compositiva pan (todo) e akos (remédio), em alusão ao fato de que Panaceia era capaz de curar todas as enfermidades.

Muito tempo depois da Grécia clássica e da transformação de sua mitologia em mero registro literário do alvorecer do pensamento humano, ainda temos, por mais curioso que possa parecer, pessoas crédulas na panaceia, na cura de todos os males com apenas um ou poucos medicamentos.

Foi em 2016, não há tanto tempo atrás, que o então deputado Jair Messias Biroliro consegui emplacar, após quase três décadas na câmara como parlamentar, uma lei cuja autoria lhe foi atribuída, ao lado de diversos outros parlamentares – inclusive Dudu Bananinha -, a de n.º 13.269, que autorizava o uso da fosfoetanolamina sintética no tratamento de pacientes diagnosticados com neoplasia maligna. Publicado em 13/04/216, o texto legal teve vida curtíssima, com o STF suspendendo, já em 19/05/2016, sua eficácia em decisão liminar na ADI n.º 5501. O processo ainda não foi definitivamente julgado, mas, ao que parece, o assunto está meio que caindo no esquecimento, inclusive porque, submetida ao crivo de testes clínicos sérios por instituições respeitáveis, a substância não demonstrou a incensada capacidade de curar todos os tipos de câncer.

E, com a devida licença, nem poderia ser diferente.

Somente um total déficit cognitivo leva uma pessoa, no gozo de suas faculdades mentais – ainda que limitadas -, a acreditar que, sem qualquer pesquisa séria e por mera “intuição” de um único pesquisador, que nem médico era e, mesmo assim, saiu distribuindo a esmo o composto,  pudéssemos ter esbarrado em uma cura quase milagrosa e praticamente indolor para um grupo de doenças – sim, câncer não é “tudo a mesma coisa” – que abala a humanidade há milênios. Esse mesmo déficit cognitivo induz a pessoa, desprovida de conhecimento e imbuída de um espírito de conspiracionismo propagado à exaustão por gente ainda menos capacitada e mais paranoica, a insistir cada vez mais em suas teorias, quase inviabilizando o convívio social.

Com a COVID-19, estamos vivendo a mesma realidade paralela. Enquanto os implacáveis fatos expõem milhares de pessoas sucumbindo à doença diariamente, sem que nenhuma instituição médica ou farmacológica tenha sequer arriscado sugerir a adoção de um ou outro tratamento como forma eficaz e definitiva de debelar a enfermidade, no Brasil já temos a pílula para a moléstia, a tal cloroquina, que, a exemplo da fosfoetanolamina, está sendo escondida da população por lobby da indústria farmacêutica, dos comunistas, dos reptilianos, dos incas venusianos ou qualquer outra entidade do mal que esteja povoando o imaginário dos usuários de WhatsApp que encaminham diariamente dezenas de mensagens, vídeos e denúncias uns aos outros, cegos, surdos e loucos para argumentos científicos e, em última análise, para o simples bom senso.

Curiosamente, o mesmo personagem está por trás da divulgação destas duas panaceias, e ainda assim seu séquito de seguidores segue implacável, inabalável, crente no messianismo de suas palavras quase sagradas.

Isso diz muito mais sobre o fim da civilização que se pode imaginar. Espero que algum dia possamos dar risada deste período de obscurantismo da nossa história, mas estou cada vez menos crédulo nesta possibilidade.

 

 

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