O fim veio. E nós o merecemos.

Publicado: 21/09/2018 por BigDog em Isto é Brasil..., Não há o que não haja!
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Recentemente o perfil oficial da Embaixada da Alemanha no Brasil publicou no Twitter um vídeo curto informando que, apesar do horror do holocausto, as crianças em seu país são desde cedo ensinadas sobre os sofridos detalhes de sua história.  Em uma parte do vídeo, a informação é que a ideia central desta educação precoce – na faixa de 13 a 15 anos – é “conhecer e preservar a história para não repeti-la”, evitando que em algum momento do futuro o renascimento do discurso nazista possa encontrar acolhida no pensamento de pessoas despreparadas para lidar com ele. Ainda conforme o vídeo, na Alemanha constitui crime negar o holocausto, exibir símbolos nazistas e fazer a saudação “Heil Hitler”.  (confira a íntegra aqui). Aos representantes de uma nação, certamente não deve ser uma tarefa fácil assumir, publicamente e sem qualquer maquiagem, o pior momento de seu passado, que inevitavelmente será para sempre lembrado pelo resto da humanidade como uma das maiores mazelas da história universal. Assumir uma posição franca e aberta com relação a um assunto certamente tão dolorido somente indica mais um dos motivos pelos quais, assimilando as lições daquele passado, a Alemanha se tornou a nação que é hoje.

Transcrevendo falas do Ministro das Relações Externas alemão, Heiko Mass, o vídeo nos informa que há preocupação e incentivo a que se combata o extremismo de direita na Alemanha, inclusive com a referência de que “quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal”. E aí ocorreu o grande erro da Embaixada: tentar semear pensamentos em um solo tão pouco propício a gestá-los, o povo brasileiro. Em reação à lógica associação do movimento nazista e dos atuais neonazistas com a extrema direita – ponto que sequer se questiona entre historiadores alemães, segundo reportagem da agência DW Brasil -, uma verdadeira malta de iletrados brasileiros foi, dolorosamente para o resto de nós, manifestar orgulhosamente sua ignorância nas redes sociais, teimando, esperneando e “arjumentando” que o nazismo, na verdade, é uma ideologia derivada da esquerda.

Seria um movimento até mesmo engraçado e pitoresco se não fosse extremamente trágico e doloroso. Habitantes de um país que, há menos de três semanas, viu arder grande parte de sua história e, mais desgraçadamente ainda, fatia importante da história do resto do mundo, em um incêndio decorrente do mais absoluto descaso e desleixo com o próprio passado, com o conhecimento humano nas mais variadas áreas da ciência e da história, tentaram realmente ensinar história da Alemanha aos alemães. Patético. A origem de tal disparate, no Brasil, pode ser traçada diretamente ao suspeito habitual, o auto-intitulado “filósofo” Olavo de Carvalho (pérolas de sua sabedoria aqui), tendo sido repetida no lamentável livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, do jornalista Leandro Narloch, e, atualmente, sendo pregada por acéfalos do calibre do YouTuber Nando Moura. A manobra visa, primária e evidentemente, a associar todas as atrocidades da humanidade com os ditos movimentos de esquerda, fazendo parecer que no que se convenciona chamar de direita não há espaço para discursos extremistas, preconceituosos e discriminatórios, nem a eclosão de catástrofes da magnitude da vivenciada na Alemanha da segunda guerra. Não à toa, o discurso ganhou espaço nas redes sociais do deputado Eduardo Bolsonaro, em texto publicado ainda em abril/2015.

E é exatamente este o maior motivo de serem completamente alarmantes as manifestações ensandecidas dos brasileiros: ao que parece, não estamos mais dispostos a raciocinar, assumimos que devemos, com quaisquer meios, tirar de seus cargos os “comunistas” e “socialistas” que tomaram conta do país, não importando para isso que tenhamos que abdicar de qualquer coerência e bom senso. Não admitimos meios-termos. Não nos importamos com manifestações odiosas contra outros seres humanos, apenas estabelecemos que o “diferente” deve ser destruído, calar-se e viver uma vida sem direitos, de preferência sem incomodar o resto da sociedade. Não temos dívidas com os negros, afinal os próprios africanos se auto-escravizaram e os portugueses somente fizeram o transporte, sequer tendo pisado na África. Não devemos respeito a homossexuais, que devem ser espancados para “se ajeitarem” e sumirem da nossas vistas. Às mulheres, reservamos o papel de subalternas, com remuneração inferior pelo inconveniente de se ausentarem do trabalho para gerar e nutrir novas vidas, assinando carta branca para que os patrões resolvam estas questões como melhor lhes aprouver. Nossa justiça é a do mais forte, damos autorização para que a polícia mate indiscriminadamente, porque precisamos preservar nosso patrimônio e não somos obrigados a dar nenhum tipo de oportunidade a quem quer que seja. Errou, tem que pagar, de preferência com a vida. Um incômodo a menos. Devemos escorraçar os venezuelanos que, em desespero, vieram bater nas nossas portas, implorando por suas próprias vidas, visto que é sua culpa terem adotado linhas socialistas em seu governo. Que morram à míngua, eles e o resto da escória da humanidade. Não devemos ter empatia com ninguém e o egoísmo nos norteará para o caminho do bem.

A única esperança que me resta é que, daqui a talvez cem anos, alguém irá postar no equivalente às nossas redes sociais um material audiovisual informando que, apesar do triste momento que passamos nas primeiras três décadas do século XXI, aprendemos com a nossa história, revimos nossos abissais erros e estamos nos esforçando bravamente para não esquecê-los ou repeti-los. E isso sem que ninguém comente que, na verdade, Jair Bolsonaro foi um injustiçado e todas as falas odiosas a ele atribuídas foram criadas e manipuladas pela imprensa tendenciosa da época.

 

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