Duas hipóteses. Ambas sombrias.

Publicado: 20/11/2015 por BigDog em Ah é, é???, Cultura nunca é demais!, Isto é Brasil..., Ler é uma perca de tempo

Passada a celeuma sobre a questão do ENEM envolvendo o texto de Simone de Beauvoir, resolvi parar um minuto para pensar sobre o assunto, depois de ter ignorado solenemente as manifestações doentias que li por aí. O parágrafo, textualmente, diz o seguinte:

“Niguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”

Se me permitem a imensa falta de modéstia, apenas lendo o excerto do texto, entendi perfeitamente que ele versa sobre o feminismo. Intui, inclusive, que a expressão “ninguém nasce mulher” se refere à definição da mulher na sociedade, ao papel que esta irá assumir perante os outros, e não à orientação sexual da “fêmea humana”, na definição da própria autora. Consegui, de forma completamente independente, ler o texto de forma isenta e verificar sobre o que ele versa, retirando o sentido que a autora pretendeu dar. Sou inteligente por demais, não?

NÃO!!!

Somente duas condições podem impedir que a pessoa extraia do texto acima transcrito seu exato sentido:

  1. Analfabetismo funcional, aquela condição tão comum na sociedade brasileira, que se caracateriza justamente pela inabilidade de, apesar de formar corretamente as palavras mediante sua leitura, formar uma seqüência lógica e racional a partir de qualquer manifestação escrita; e,
  2. Completa desonestidade intelectual, enfatizando uma figura de linguagem utilizada para embasar um discurso prévio de intolerância e radicalismo.

Infelizmente, há inúmeras pessoas que se enquadram na primeira hipótese, o que depõe negativamente acerca do sistema educacional brasileiro. Se uma pessoa prestes a ingressar na faculdade não conseguir, por seus próprios meios, intepretar um texto tão singelo, certamente estaremos diante de um déficit de preparação e aprendizado que, com todo o respeito, dificilmente pode ser corrigido em algum ponto.

Mas o mais preocupante são aqueles que se enquadram na segunda hipótese. Nestes, incluem-se, sem qualquer sombra de dúvidas, figuras execráveis da vida pública nacional, tais como Silas Malafaia, Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro (se bem que quanto a este último tenho lá minhas dúvidas). O que fazem estes cidadãos é, basicamente, emprestar uma interpretação absolutamente distorcida do enunciado da questão antes transcrita, professando que esta demonstra claramente uma tendência dos órgãos estatais encarregados da educação de crianças e jovens a seguir o que eles mesmos denominam de “ideologia de gênero” ou “gayzismo”, que seriam ferramentas do Estado comprometer a “família tradicional” e, como última conseqüência, estabelecer uma ditadura comunista/socialista. Fazem isto, evidentemente, contando que a grande massa de funcionalmente analfabetos, repetirão “ad nauseaum” estes argumentos torpes e sentirão temor ou descontentamento com as políticas educacionais, pendendo a, para evitar a tal ditatura, entregarem seus votos e darem muito dinheiro aos envolvidos.

E este quadro, por si só, é preocupante. QUALQUER das duas hipóteses que enumero aponta, fatalmente, para um quadro sombrio no futuro da nação. Ou nos tornaremos uma nação de deficientes intelectuais, sobrevivendo com dificuldades aos desafios que o avanço das ciências e da tecnologia nos imporão, ou seremos todos pessoas arrogantemente tendenciosas a interpretar qualquer idéia divergente das pré-estabelecidas com base em preconceitos e irracionalidades, o que dá quase no mesmo.

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comentários
  1. Wolfarth disse:

    Muito bom, Cachorrão! Concordo totalmente. Vejo muita intolerância nas redes sociais e também nos sítios de notícias que proporcionam aos internautas escrever comentários. Aliás, se vê de tudo. Mas, principalmente, idiotices, fanatismo, irracionalidade e boçalidade. E a cada dia, me surpreendo o quão difícil vai ser conviver com toda essa gama de opiniões que apenas servem para desagregar e disseminar o desconhecimento profundo acerca de assuntos muitas vezes importantes para a sociedade. E o pior de tudo é que não vejo como isso mudar.

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