O monoteísmo é um erro

Publicado: 15/08/2009 por BigDog em Um muito sobre nada...
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A busca da humanidade por uma explicação plausível para a vida, o universo e tudo mais sempre foi uma característica incessante. Desde que superamos os nossos parentes primatas e conseguimos nos comunicar e manter um registro, verbal ou escrito, de nossas experiências – e um certo senso crítico sobre elas -, tentamos encontrar algo que não faça da nossa existência no planeta uma coisa gratuita, sem nexo e sem destino. Acredito que um dos maiores medos, senão o maior, do homem é morrer e, bem, morrer. Acabou, ponto. Por isso, não havendo como, no início dos tempos, explicar até mesmo o mais simples fenômenos naturais, fomos desenvolvendo um pensamento mágico-mítico sobre forças sobrenaturais superiores. Devia ser muito complicado para as primeiras civilizações explicar coisas que as assustavam: o trovão, a chuva, o fogo, a neve, e por aí vai. Por isso, mitos e mais mitos, crenças em deuses diversos, cada um com seu caráter e humor próprios de domínio sobre um ou outro aspecto da vida no planeta. Deuses guerreiros, bondosos, vingativos, glutões, hedonistas, enfim, deuses para todos os gostos. Alguns destes mitos remontam a milhares anos antes da nossa era – marcada, diga-se de passagem, por outro mito religioso, mas sobre isso escrevo depois.

Durante milênios, as diversas civilizações e culturas acreditaram em seus próprios deuses, escolhidos a seu bel prazer. Babilônicos, sumérios, gregos, egípcios, nórdicos, romanos, cada um tinha seu panteão de divindades e cada uma delas atendia a um fim específico. Essas civilizações floresceram em meio a uma torrente de crenças diversas, cada uma adequada ao perfil do povo específico. Povos guerreiros sempre tinham com principal divindade algum deus da guerra, povos afetos às artes adoravam deusas da música, da pintura, do equilíbrio. Mercadores e navegadores tinham seus altares para divinos protetores das rotas marítimas e terrestres, porque seu único interesse era chegar logo ao destino e entregar suas mercadorias, retornando com o lucro respectivo, para então começar tudo de novo. Nessa promiscuidade, deuses casavam com humanos, coexistiam com outras raças e espécies de seres, tais como titãs, elfos, duendes, exus e por aí vai. E todos esses impérios floresceram, prosperaram, enriqueceram e tiveram sua apoteose, para depois serem dominados pelo império seguinte, o que acentuava ainda mais o quadro geral, na medida em que deuses e divindades ‘migravam’ junto com seus adoradores.

Do outro lado, do ponto de vista científico, é impressionante ver como tais civilizações antigas prosperaram e realizaram coisas que, com as técnicas da época, até hoje nos surpreendem. Ainda temos, para muitas destas realizações, a perplexa pergunta ‘como eles fizeram isso?’. Arrisco a dizer que os homens atuais, frente aos desafios que se apresentavam na antiguidade, sentariam e chorariam, sem ação, pondo fim à raça humana. Era preciso muita coragem e determinação para construir as coisas na base da força braçal, descobrir na tentativa e erro e apresentar os resultados. Hoje nos jactamos de todo nosso progresso, nosso conhecimento acumulado, mas quantos de nós efetivamente sabe de algo do que está acontecendo? Quase ninguém. Não é teoria conspiratória, é apenas um fato: o mundo cresceu demais, apesar da impressão de que está menor, com a comunicação globalizada e tudo o mais, mas o fato é que há níveis demais, complicações demais, oportunidades e negociatas demais.

E o que isso tem a ver com o monoteísmo? Tudo. Com o devido respeito a quem pensa o contrário, nós somos o que somos, retrógrados – sim, retrógrados, não confunda permissividade com liberdade, desleixo com tolerância, arrogância com sabedoria -, individualmente inferiores a nossos antepassados em termos de domínio do conhecimento geral acumulado pela humanidade, e perdemos, de um modo geral, o interesse pela descoberta, pela ousadia, confiando demais em ‘especialistas’ e esperando que empresas sem face resolvam nossos problemas, porque tudo o que vivemos, respiramos, acreditamos, se funda no legado de uma mancha indelével do homem na terra: a Igreja Católica Apostólica Romana e todos os seus renegados filhotes. Não que os católicos tenham criado o monoteísmo, antes haviam os judeus e seu deus único, Javé, e depois surgiram os muçulmanos, com Alá e seu Profeta, mas foram eles que o espalharam como uma doença por toda a humanidade, acirrando a intolerância e a ignorância como forma de dominação e submissão.

Sim, porque, no fundo, não há um único registro confiável do que seja a vontade deste Deus único que adoramos como alternativa exclusiva nos dias atuais. Na verdade, o que é dito como ‘vontade de Deus’ nada mais é do que a transcrição deturpada de supostos contatos com o Criador e das palavras de seu filho, Jesus Cristo, transcritas no novo testamento sem que – e aqui cito Harold Bloom – haja uma única destas linhas escrita por pessoas que conviveram de verdade com o personagem histórico. Tanto isso é verdade que a igreja primitiva promoveu concílios e discussões acirradas para eleger os evangelhos ‘autênticos’, ou seja, aqueles que deveriam fazer parte do catecismo oficial. Intuitivo deduzir que, tendo desprezado vários outros, somente os que se encaixavam ao padrão de comportamento eleito, escritos séculos depois da morte de Jesus, foram admitidos, tudo com vistas a legitimar reinados, ampliar poderes e impor a dominação aos povos. Em resumo, não se trata de verdade única, apenas a verdade escolhida, aquele que servia aos interesses.

E, desde então, vivemos com este estigma de uma sociedade concebida com o foco em um comportamento predeterminado e que asseguraria o acesso ao ‘reino dos céus’. E eu pergunto: como desconsiderar todas as outras possibilidades? Por que afastar o deus dos judeus ou dos muçulmanos – ou a compreensão dele, caso se considere que são todos o mesmo deus único e criador, coisa que não farei, por absoluta falta de embasamento – apenas por mentiras, intolerância e ganância? A dominação cultural e econômica decorrente do catolicismo é a mais hedionda da história, sem sombra de dúvidas. O colossal atraso imposto pela nova religião condenou a humanidade a uma idade das trevas duradoura demais, na qual se queimaram ‘bruxas’, derrubaram-se governantes honestos, manipulou-se o entendimento e a vida da população, extorquindo dela até o último vintém disponível. Uma brutalidade sem paralelo. Isso sem falar nos sub-produtos deste embuste: a pecha fixada em judeus de sujos e inconfiáveis, porque foram eles que mataram o Filho do Homem, o holocausto, a incomunicabilidade com o mundo árabe que, durante toda a idade média, esteve anos-luz à frente do catolicismo em termos de desenvolvimento científico e cultural. Nos dias atuais, tentando sobreviver, os católicos revêem algumas posições, querendo se modernizar, mas um pouco tarde demais, ao menos para as bruxas e cientistas condenados e executados como hereges. E para reverter o processo de inquestionável boçalidade que estabelecemos.

Por isso tudo, entendo que o monoteísmo seja um erro de concepção, uma forma de pensar opressiva e velhusca. Ainda hoje vemos os frutos disto tudo nas guerras disfarçadamente travadas em nome do Senhor – quando a briga, todo mundo sabe, é pelo petróleo – e na fundação de cultos evangélicos que tentam enriquecer à custa da ignorância do povo. Por mais que os católicos as repudiem, foram eles que prepararam o terreno para esta gente, hoje próspera, rica e lustrosa, mas que, de forma alguma, pode se eternizar. Assim como todas as formas de pensamento único e direcionado. Liberdade de credo tem que ser mais do que uma mera garantia escrita em constituições que ninguém lê. Deve ser a libertação de todo o modelo implantado, pelo nosso próprio bem.

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comentários
  1. Wolfarth disse:

    Loas para o teu artigo, Cachorrão!
    Disse quase tudo sobre uma série de coisas que muitas vezes transtorna a minha cabeça e, penso, a de outras pessoas.
    Religião é ditadura de pensamento e isso é ruim para quem tem sede de verdade.
    Afinal, se a humanidade busca a verdade e ela é difícil de obter, como alguém pode querer impor a sua “verdade”?
    Sempre existem interesses por detrás de tudo isso e a atmosfera está contaminada de mentiras.
    Algum dia, quiçá poderemos saber mais do que sabemos hoje, mas como saberemos tratar-se da verdade?
    Tudo isso me deixa inquieto e ao mesmo tempo inerte.
    Que Deus nos acude!
    Só para sair bem, dá-lhe INTER!

  2. Cranio disse:

    Claaaro que preciso dar meu pitaco.
    O texto é muito bom…para difundir as idéias próprias.
    O povo indiano não é monoteísta, e vive em atraso milenar comparado aos atrasados ocidentais.
    Os católicos preparam o caminho para os neopentecostais; porém os católicos copiaram os judeus, que já enriqueciam as custas da religião. Aliás, isto ocorreu em TODOS os lugares onde há religião, inclusive nas tribos indigenas. O pagé, por ter o poder, a chave que liga os pobres-mortais com os deuses, possuía também benesses especiais da tribo.
    Para elucidar fatos, o último evangelho foi escrito por um contemporâneo de Jesus.
    O primeiro concilio ocorreu antes da Igreja Católica dominar o mundo (cerca de 300 d.C.).
    Jogar as mazelas do mundo para a questão monoteísta ou politeísta soa demais simplista.
    É como eu dizer que os problemas do mundo advém da Coca-cola e do McDonald´s (é algo verdadeiro, mas poucos aceitam).
    Abraço

    • BigDog disse:

      Mas tchê, porque diabos eu escreveria um texto se não fosse para difundir as próprias idéias? O objetivo era esse mesmo. Eu sabia que tu iria falar nos indianos, mas o caso é que o sistema religioso deles também foi desenhado para manter uma total imobilidade entre classes, muito mais opressivo que o nosso. O que eu quis dizer foi que precisamos tolerar o pensamento e as crenças divergentes, o que também não é o caso por aquelas bandas. Isso não invalida meu argumento, penso eu.
      Eu sei que o primeiro concílio é anterior à dominação católica, foi justamente o que eu disse: tais concílios serviram para formar a base da doutrina que pretendiam impor ao mundo. E, como não entendo nada de evangelhos, me embasei no livro do Harold Bloom que estava lendo, do qual tirei a afirmação. Pode ser que ele esteja errado, mas não invalida o fato de que os evangelhos ‘verdadeiros’ foram escolhidos de acordo com o interesse da ‘diretoria’ da época. E foi só surgir outros textos contemporâneos, como o evangelho de Judas e de Maria Madalena, que o povo saiu correndo a colar nestes a pecha de inválidos, forjados, e por aí vai. Enfim, não dá para negar que tudo o que nos enfiam ouvido abaixo é conto da carochinha, certo?
      Finalmente, queria te dizer que, na resposta, lançaste o argumento que não tive coragem de usar: toda e qualquer religião só se presta a explorar e dominar o outro. Beleza, era isso mesmo que eu queria dizer. Só acho que, num sistema onde se toleram outras idéias, talvez se tenha mais espaço para contestar e reivindicar algo melhor. Isso deveria ser feito sem qualquer base mistica, mas já que o jogo é esse, melhor conversar nos mesmos termos…

      • cranio disse:

        Na verdade, utiliza-se a pseudo determinante “eu sou o eleito para ligar a turba ao todo poderoso” para fazer dominação. Utiliza-se isto desde times de futebol até conselho de pais e mestres. Deixa-se de lado a parte mais legal, o embasamento filosófico (onde o cristianismo é muito legal porém com possibilidades de melhoria, e quando digo isto estou me embasando na doutrina completa, ou seja, a Bíblia). É um tema que rende boas vendas a livros por mexer em vacas sagradas alheias e criar polêmica.
        Nos últimos 50 anos, pelo menos no Brasil, pode-se ver uma incrivel tolerância religiosa. Não sei como isto ocorre nos outros lugares do mundo.
        Quanto as polêmicas, acho que a doutrina cristã é para ser aceita e pronto, tal como torcemos para o Internacional e não para o Grêmio.

  3. nathalia disse:

    vcs confundem mto meus pensamentos,ja nao sei peco em qustionar Deus,ja nao sei em q acreditar,onde eu vivo nao ha uma tolerancia religiosa,ou melhor,na teoria existe.Eu sou confusa,acredito em Deus ,mas ao mesmo tempo questiono.As vezes acho q somos briquedos de Ets!

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