O filho do Seu Tertuliano

Publicado: 27/10/2008 por Crânio em Não há o que não haja!, Um muito sobre nada...

Pois, eis que uns tempos atrás, nosso acadêmico e nubente Alemão nos apresentou o seu Tertuliano e sua história.

Fiquei curioso para saber como sua descendência estaria nos dias atuais. Chafurdando aqui e ali, consegui encontrar um dos filhos “das macegas” do seu Tertuliano: Jesmison. Criatura assaz esperta e ligada no mundo moderno, apesar de sua vida simples ligada ao campo.

Dono de “uns equitare de terra” na divisa de Coronel Bicaco e Bossoroca, vivia da criação de galinha, de onde ganhava dinheiro vendendo ovos, reprodutores, galos de rinha, galinha preta para despacho e tudo mais que se relacionava ao distinto gallus domesticus.

Sempre muito atento às conversas no povoado, para estar bem informado e não passar por grosso cada vez que ia entregar seus produtos, Jesmison foi adequando seu negócio as necessidades do mercado, pois muito ouviu falar em concorrência, qualidade, cliente (coisa que pra ele é como as piguanchas o chamam lá na zona), e todo este vocabulário dos bolichos modernos.

Assim acabou por desenvolver um tipo especial de ovo. Mudando o jeito de criar as galinhas, com ração e cuidados especiais, conseguiu um tipo de ovo que passou a ser apreciado pela Dona Hermecinda, que fazia bolos e quitutes especiais e pelo seu Getulio, que preparava panquecas e xis especiais no seu pé-sujo(*).

A fama se espalhou rápido e trouxe a reboque mais clientes. Jesmison que não era bobo lembrou da questão de oferta e procura e resolveu usar um dos aprendizados lá do povoado: aumentou os preços!

Dona Hermecinda e seu Getulio ficaram brabos, mas pagaram, afinal o produto era bom. E os novos clientes nem se importaram, pois não conheciam o preço antigo e estavam maravilhados com a qualidade do produto.

Vendendo para outros mercados (este nome estranho para outros bolichos em outros povoados), acabou fazendo mais fama e aumentando ainda mais a freguesia (que era como preferia chamar os clientes…coisa de maloca). Passou a ganhar muito dinheiro e viu que sua atenção às conversas na cidade lhe rendeu algo de útil.

Tudo acontecia muito rápido. Aumentou o aviário, comprou equipamentos, tinha funcionários, fez empréstimos no banco (era visível seu nervosismo na primeira vez que sentou na frente do gerente…ele nunca se imaginou falando de igual com um engravatado). Chegou até a usar gravata, com um nó torto que ele fez, para ir outras vezes ao banco e sentir-se como um homem de negócios e não como um simples criador de galinha.

Um dia o gerente do banco lhe fez uma proposta de sociedade. Era irrecusável!!! Ganharia dinheiro suficiente para comprar 10 vezes o que ele já tinha. Não entendeu porque tanto dinheiro mas não recusou. E a cada dia mais ovo e mais dinheiro!

Um ano depois o mesmo gerente, e agora sócio, lhe propôs vender ações da “empresa” (aquele antigo galinheiro) na bolsa de valores. Aí foi difícil para o Jesmison entender; bolsa, pedaço da empresa, sociedade anônima, não saber quem era sócio seria muito complicado. O Claudionor era sócio porque era gerente do banco, se tornou seu amigo, ajudou bastante. E ademais ele conhecia até o avô do Claudionor antes de entrar no banco pela primeira vez, só não conversava com ele pois se sentia um pouco inferior diante de alguém estudado e engravatado. Mas o sócio lhe convenceu e ganharam mais dinheiro ainda. Todos queriam um pedaço do “galinheiro” do Jesmison!

Jesmison estava rico como nunca imaginara…mas não perdeu a cabeça e poupou muito, investiu em terras, comprou alguns prédios lá no povo e não esbanjou muito. Quando muito uns presentinhos para uma chinoca mui linda que ele conheceu em São Borja. Mas preferia era deixar o dinheiro na guaiaca e não investia em ações de outras empresas como o seu “primeiro sócio” fazia.

E com tanto dinheiro, Jesmison largou o trabalho no “galinheiro”, que passou a ser administrado por pessoal com estudo, alguns engravatados, que faziam de tudo para a empresa dar ainda mais dinheiro. E conseguiam; cada vez que Jesmison visitava a empresa eles mostravam uns papéis cheios de riscos e traços (demorei a descobrir que eram gráficos) que mostravam que ele estava ganhando ainda mais dinheiro.

Este pessoal com estudo e engravatado, no entanto, acabou por esquecer alguns cuidados na redução de custos, não seguiram a receita original do Jesmison e a empresa começou a declinar, não conseguindo a mesma qualidade e produtividade. Agravado pela crise internacional, as ações da empresa começaram a declinar. Tragédia com ato final, as galinhas pararam de colocar ovos, devido a um medicamento que tentaram aplicar para aumentar a produção.

E assim quebrou o galinheiro do Jesmison; muita gente ficou desesperada, muitos perderam dinheiro. Menos o Jesmison, que guardou muito bem o que ganhou com o suor do seu rosto aliado ao seu estudo informal nas conversas do povoado.

Como o Jesmison vivenciou muita coisa nestes últimos anos e, por ser alguém que aprendeu muitas coisas ao seu jeito, não me contive e perguntei, na opinião dele e resumidamente, porque o galinheiro quebrou. A resposta, depois de um pigarro e um olhar ao longe:

– Contaram com o ovo na sambica da galinha.

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comentários
  1. Wolfarth disse:

    Muito interessante!
    Crânio aventurando-se na prosa!
    Pelo visto, não perdeste nada de teus anos de literatura!

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