Pré-sal. E agora, José?

Publicado: 24/09/2008 por BigDog em Populítica
Tags:,

Tenho lido muito sobre a discussão acerca do petróleo do pré-sal e todas as implicações políticas e econômicas decorrentes da exploração deste recurso natural. Pelo que entendi, a idéia de Molusco I, o engraxado, é fundar uma nova estatal dedicada exclusivamente à exploração das reservas, retirando da Petrobrás – hoje uma multinacional muito distante do ufanismo patriótico que a permeava quando de sua criação – a autorização para captar tais recursos, nacionalizando os lucros, que seriam revertidos para programas sociais. As alternativas mais aventadas para este modelo seriam, a exemplo do que fazem os países nórdicos, criar um fundo de investimento em instituições financeiras internacionais, somente liberando os recursos à medida em que a oferta de produtos e serviços se mostrasse compatível ou houvesse necessidade de gastos urgentes, ou destinar a produção exclusivamente ao consumo interno, estocando eventuais excedentes para momentos de crise de abastecimento.

Claro que a solução da questão está longe de ser pacificada, e quaisquer dos planos acima apontam para benefícios e deficiências que precisariam ser contornada. Minha opinião – sem qualquer embasamento, como sempre – é a seguinte: deixa o petróleo onde está!

Primeiro, porque a abundância de divisas decorrentes da exploração petrolífera se mostrou prejudicial em diversos casos, com países riquíssimos neste campo demonstrando falhas grosseiras em seus sistemas econômicos e sociais. Compreendo que a economia nacional está estruturada suficientemente bem para evitar que passemos a ser uma nação dependente exclusivamente dos recursos advindos da venda do óleo, não havendo indicativos que ocorrerá um abandono das demais fontes produtivas e o estabelecimento de oligarquias enriquecidas em detrimento de uma grande massa de necessitados e desempregados. Mas acredito que, assim como a escassez, a pujança também é difícil de ser administrada. Extraindo apenas o necessário ao consumo interno, obteríamos dois resultados positivos: longe de mãos ambiciosas, o petróleo não se tornaria um facilitador de aventuras econômicas impensadas, permanecendo em reservas ainda disponíveis para eventuais necessidades; e, auto-suficiente na questão energética, o país poderia reduzir o preço dos combustíveis e os custos da indústria, o que gera emprego, desenvolve a economia e fortalece a posição do país no mercado internacional.

Segundo, porque é fato que o modelo energético vigente demorará ainda algum tempo para ser mudado, talvez mais do que resistem as reservas atuais. Nesse caso, qualquer nação que ainda disponha de reservas consideráveis terá na manga um trunfo fortíssimo para negociações internacionais. Aqui eu falo, efetivamente, de chantagem. Ao invés de nos submetermos às regras alheias, podemos vir a ocupar a privilegiada posição de ditar tais regras, condicionando o fornecimento do produto a algumas exigências que só não são aceitas atualmente em razão de nossa posição sempre inferiorizada no cenário econômico. Claro que aqui temos o risco de sofrermos uma invasão armada, sob qualquer pretexto, mas se bem pensada e negociada, a alternativa não é de todo má.

Enfim, a questão é nova e ainda merece muito debate. O que me deixa satisfeito é que, ao contrário de outros tempos, não estamos pensando em gastar tudo em cachaça. Sinal de amadurecimento.

Anúncios
comentários
  1. Wolfarth disse:

    Excelente artigo! Caso tivéssemos consultores políticos da tua estirpe, estaríamos em outra situação socioeconômica. Cachorrão pra Presidente em 2010!!!

  2. Wolfarth disse:

    Ah… gostei da caricatura!

  3. Alexandre disse:

    Pois discordo deste artigo, visto que a idéia de criar a estatal não é do Sr Presidente Luis Inacio (não o chamarei desta forma pejorativa que tanto usa), e sim do Ministro Lobão, que representa a face oligárquica e retrógrada do PMDB nordestino. Luis Inacio sabe que contratos são contratos e rezara muito para que o proximo presidente, seja lá quem for, não detone com a Petrobras.
    A despeito das riquezas do petróleo, nãoprecisa preocupar-se: o ministro de energia da Noruega comparou o sistema brasileiro ao Noruegues (um dos melhores do mundo). Uma estatal forte com capital aberto, desenvolvimento tecnologico nacional, incentivo as industrias nacionais no fornecimento de sistemas e componentes, internacionalização da estatal e parcerias estrategicas.
    Claro que dá ibope falar mal de um presidente que melhorou e muito a petrobras. Pergunte a qualquer empregado da Petrobras quanto eles ganhavam de participação de lucros antes do Sr Luis Inacio e depois do Sr Luis Inacio. Será que uma petrolífera com reserva de mercado não dava lucro antes?
    Sei que é muito duro para muitos, mas esta é a verdade: o caminho atual é MUITO MAIS CORRETO que os trilhados por outros presidentes com curso superior e falantes de várias línguas.

  4. BigDog disse:

    Tchê, vamos deixar para controverter apenas quando discordarmos, ok? Eu não fiz qualquer juízo de valor sobre a proposta da nova estatal, até porque, como já deixei bem claro, não entendo lhufas do assunto, e apenas enumerei as propostas sobre as quais tive conhecimento. Foi tu quem disse que a idéia representa um pensamento atrasado e oligárquico. Mas, como o Exmo. Sr. Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, considerou a hipótese, creditei a ele o modelo proposto. Na verdade, as idéias somente têm dono até que alguém as implantes. Depois, das duas uma: ou dá briga para assumir a ‘paternidade’ (no caso de dar certo), ou todo mundo tira o seu da estaca (se der qualquer merda). Mas não fui definitivo em nada, portanto não precisa ficar aborrecido.
    Ademais, reconheci que é um avanço estarmos pensando com calma e seriedade sobre uma questão tão importante quanto esta. Quando me refiro a ‘gastar tudo em cachaça’, realmente reconheci que nos governos anteriores tratávamos os problemas nacionais com mais descaso e ‘vamos ver no que dá’ do que neste episódio específico. A referência à cachaça não tem nada a ver com o presidente, mas com a índole nacional de não prever o amanhã, que todo mundo sabe que é essa mesmo.
    Quanto aos funcionários da Petrobrás, tua afirmação me lembra aquela história do açougueiro que, mordido por seu cachorro, passou a dar sebo e rebarbas para o bicho ao invés de apenas ossos. O filé continuava no balcão, e o lucro ia para o bolso do açougueiro, mas, como estava comendo algo com cheiro de carne, gosto de carne, e mais macio, o cão redobrou sua dedicação aos cuidados do estabelecimento. Muito cuidado, meu velho, que estamos comemorando demais as sobras que estão nos atirando. Tu dirás: pelo menos estão dando alguma coisa, porque antes não davam nada, etc… Mas o filé ainda está no balcão, e quase ninguém pode comprá-lo e/ou comê-lo…
    Só fico aborrecido de tua achar que eu quero ibope. Quero não, tu sabe que é isso mesmo que eu penso… Se não fosse, não escreveria.

    Em tempo: como já referi diversas vezes, eu não me importo nem um pouco com o que os Ministros da Noruega, do Burundi ou do Cazaquistão pensam de nós…

  5. Wolfarth disse:

    Assembléia da ABRIC já!

  6. BigDog disse:

    Sexta-feira, 20h 30min, no ABRIC Convention Center!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s