‘Foi o 20 de setembro’… (Ênfase no FOI)

Publicado: 24/09/2008 por BigDog em Não há o que não haja!, Um muito sobre nada...
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O Rio Grande do Sul, muito provavelmente, é o estado da federação que demonstra com mais clareza sua ligação com as tradições ancestrais de seu povo. Claro que a cultura popular é valorizada em todos os lugares, mas nós temos essa marca de nos orgulharmos das coisas que caracterizaram o ‘ser’ gaúcho, e tendemos a eternizar o modo de vida dos antepassados como sendo a ‘autêntica’ cultura gaúcha. É extremamente delicado tocar nesse assunto, ainda mais sabendo que vou tomar um laço fenomenal aqui mesmo na casa – temos correntes tradicionalistas barbaridade entre nós – mas o fato que acho simplesmente ridículas e totalmente deslocadas algumas atitudes adotadas por parte da população que quer preservar as tradições, notadamente no mês de setembro, que culmina, no dia 20, com o aniversário da famosa ‘Revolução Farroupilha’, uma guerra civil que nós perdemos. Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que tenho muito orgulho de ser gaúcho. Até porque a opção quase concretizada seria ser catarina… Mas, enfim, gosto da franqueza, da hospitalidade e do jeito mais, digamos, ‘simples’ de ser do nosso povo. Nos outros estados que visitei, sempre senti um certo distanciamento inicial ao qual não estou habituado. Para mim, muitas vezes é difícil quebrar este gelo, e a espontaneidade do gaúcho auxilia neste ponto. Claro que muito disso é mito, temos pessoas aqui extremamente antipáticas e que não se enquadram, de maneira nenhuma, no estereótipo do gaúcho, mas no geral somos receptivos – no bom sentido – e simpáticos. O que não tolero, sob nenhuma hipótese, é ter de assistir, pela milionésima vez, às mesmas demonstrações tacanhas de bairrismo, preconceito e apego ao que não mais existe – se é que um dia existiu.

Bairrismo porque, por mais incrível que possa parecer, frente a um quadro mundial de aglutinação de nações em grandes blocos econômicos, ainda tem gente que pensa no Rio Grande como um estado injustiçado, com vocação para nação independente, mas atrelado a um Brasil usurpador de nosso trabalho e ingrato com nosso esforço. Evidente que somos um dos estados mais destacados da federação, produzimos muito e bem, mas isso não quer dizer que os outros não o sejam, e que possamos prescindir de qualquer auxílio ou integração com eles. Assisti, atônito, a manifestações de desapreço ao Brasil e a reafirmação da doutrina do separatismo – afinal estávamos comemorando justamente uma insurreição que visava ao desligamento do governo brasileiro, para a fundação de uma nação autônoma. E isso simplesmente não faz o menor sentido. São quimeras decorrentes de um ideário subconsciente de que somos melhores e sobreviveremos sozinhos, contrariando toda a lógica de integração para fortalecimento que é a tendência mundial. Evidentemente, este cenário está mudando, passaremos por grandes alterações dos sistemas econômicos mundiais, impérios cairão – como sempre acontece – e é muito temerário apostar como será o futuro. Mas isso é apenas mais uma razão para não virarmos as costas a ninguém nessa hora.

Preconceito porque simplesmente não se toleram, no âmago do movimento tradicionalista gaúcho (MTG) quaisquer alterações do que eles definiram, a seu bel prazer, como culturalmente autêntico e representativo do povo gaúcho. O que ninguém parece se dar conta neste meio é que o mundo, por incrível que possa parecer, mudou muito desde a época em que foram concebidas as roupas, costumes, danças, enfim, a ‘cultura gaúcha’ que pretendem defender. Hoje em dia, quase ninguém desfila de bombacha pelas ruas, e os costumes ‘campeiros’ não fazem qualquer sentido quando a imensa maioria da população é urbana, vivendo como em todas as grandes cidades do Brasil e do mundo, obedecendo ao protocolo estabelecido no que se refere ao vestuário, aos costumes alimentares, à etiqueta, enfim, a maioria da população está conformada a um modo de ser mais urbano e cosmopolita. Além disso, o Rio Grande foi um estado colonizado por diversas etnias, todas com suas culturas e costumes, trazidos para cá, que acabaram por redefinir o que era ‘ser gaúcho’ ao longo do tempo. Tentar congelar qualquer parte do passado, depurando o que tenha ocorrido depois, beira ao patético. Nesse contexto, fica difícil apreciar coisas como o tal ‘acampamento farroupilha’, onde um bando de marmanjos resolve brincar de homem do campo, montando cabanas de madeiras, nas quais permanecerão à toa bebendo o dia inteiro e, eventualmente, participando de algum tiroteio, afinal são todos ‘machos prá caralho’. O que parece passar batido é que o local do acampamento é atendido por luz elétrica, água encanada, linhas de ônibus, restaurantes e estacionamento pago. Muito rústico, portanto.

Finalmente, não se mostra mais viável defendermos idéias do passado, valorizando coisas sobre as quais pairam sérias dúvidas. Nossos heróis, cantados em prosa e verso, não eram seres sobre-humanos imunes à quaisquer sentimentos menores como cobiça, inveja, orgulho, etc. Ao contrário, há muito figuras lendárias tem sido questionadas em estudos históricos sérios, principalmente em relação às motivações e destinos da tal revolução. Nesse particular, é uma marca do gaúcho se enaltecer, contando bravatas e se vangloriando do que supostamente teria feito. Lógico que toda a história – até mesmo a que está acontecendo neste minuto – depende do ponto de vista a partir do qual é estudada, dos fatos divulgados e dos omitidos, podendo mudar conforme a vontade desse ou daquele setor. Isso é uma constante universal, muitas figuras de relevo foram forjadas no imaginário popular com os mais diversos interesses. O que nós precisamos, na verdade, é parar de acreditar que fomos os primeiros a fazer isto, os melhores naquilo, os mais destacados naquilo outro, e rever com frieza o passado, para poder entender o porquê de sermos assim no presente. E não vai ser criando leis sobre o ‘autêntico’ churrasco – invenção nossa e um dos poucos pratos admitidos como verdadeira culinária gaúcha -, que resolveremos isso. Alguém precisa dizer que a coisa mais lógica a se fazer com carne crua em um ambiente de poucos recursos é assá-la em uma fogueira, coisa que os neandertais já haviam descoberto. Enfim, viva o 20 de setembro e o Rio Grande do Sul, mas o verdadeiro, não o da ópera-bufa.

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comentários
  1. Wolfarth disse:

    Mas que barbaridade! Confesso que as tuas palavras são duras, porém verdadeiras sobre uma porção de coisas. São verdades intrínsecas que a maioria dos gaúchos sabe e até aceita, mas não expõe pra não se menosprezar. Caso fosse um paulista ou carioca o subscritor desse post, cairíamos de pau no pobre-diabo.
    Te cuida que o Seu Tertuliano leu isso aí e não gostou nada. Vai te pegá de relho e de pranchaço!

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