Entrevista com o “Seu Tertuliano”

Publicado: 29/07/2008 por Wolfarth em Não há o que não haja!, Um muito sobre nada...

– Bom dia! Por acaso o senhor é o “Seu Tertuliano”?

– Sô eu mesmo! E se tu for oficial de justiça ou fiscal do IBAMA pode ir dando meia volta e picando a mula, porque senão leva um pranchaço ou um tapão nos cornos!

– Calma, Seu Tertuliano! Sou jornalista!

– Jornalista? Mas o que diabo tu faz aqui nesse campo?

– Eu me informei e descobri que o senhor é uma lenda viva nos anais campeiros!

– Buenas… eu não tenho mais piolho na cabeça e não quero saber de papo de pederasta! Arre!

– Nada disso, Seu Tertuliano! Vim entrevistá-lo, conversar…

– Ocha… se é só pra isso, se aprochega vivente! Tome assento! Aceita um mate?

– Sim.

– Pois diga o que tu qué porque tenho muita lida pra hoje mesmo!

– Seu Tertuliano, fale um pouco sobre a sua pessoa…

– Óia… me chamo Tertuliano Caré. Nasci em Cacequi, lá pelos idos de 1927 e servi o exército em 1945, depois da guerra. Estudei só até o segundo ano primário…

– Puxa… mas então o senhor está com 81 anos. Nem parece…

– Pois tô são de lombo e de casco. Ainda como carne gorda e coalhada. Bebo uma guampa de canha todo dia e marco gado. Subo em árvore e ando a cavalo. E se vejo uma prenda, perco os critério…

– Mesmo?

– Tô le dizendo. Quando não tenho mulé por mais de 10 dias, sobra pra égua… aquela ali, pastando perto da figueira…

– Ah… inclusive esse é um dos motivos que me levaram a vim entrevistar o senhor… fiquei sabendo que o senhor é famoso por suas aventuras sexuais…

– Arre! As putaria que fiz na vida até que foram boas. Mas nem tudo o que dizem é verdade. Começaram a inventar côsas a meu respeito quando fui obrigado a sair de Quaraí.

– Sério? Por que o senhor teve de deixar a cidade?

– Ah… essa é uma longa história!

– Mas me conte, Seu Tertuliano…

– Pois bem, vou contar. Faz uns 20 anos que moro nessas terras. Antes, eu vivia em Quaraí. Comecei minha vida com um bolicho. Eu vendia de tudo, desde rapadura e mortadela até caninha e adaga. Lá se jogava o jogo do osso e carteado. Os gaudério se divertiam barbaridade…

– … o senhor era casado? Tinha filhos?

– Nunca me casei. Só fui amigado com uma chinoca, a Honorina, mas ela morreu de bexiga em 1959. Que Deus a tenha! E filhos eu não sei quantos eu tive, porque eu só cobria mulé casada. Mas isso eu le conto despues…

– Tudo bem. O senhor pode continuar a falar de sua vida em Quaraí…

– Ah… sim! Eu comecei a ganhar alguns uns pila com o bolicho e tive que comprar outras guaiacas pra guardar os cobres. Naquele tempo, gastava muito com as piguanchas! Era uma por noite! Me diziam pra botar os troco no banco, côsa e tal, mas eu não confiava nisso. Como eu tava com plata demás, comprei umas terras e comecei a plantar arroz. Deixei o bolicho com um agregado…

– E o senhor ganhou mais dinheiro?

– Que nada! Teve uma seca braba que acabou com todo meu negócio. Daí eu pensei: ainda bem que ainda tenho o bolicho! Entonces, descobri que o agregado sumiu com as mercadoria e com toda a féria de vários mêis… o safado tinha fugido pra Porto Alegre. Mandei até um araponga atrás. Depois de um tempo, o detetivo achou o lacaio e me avisou. Me fui pra capital e dei uma sumanta de rabo de tatu no desgranido. Me parece que ficou alejado. Só sei que voltei pra Quaraí sem meus pila, mas com a honra lavada…

– E depois?

– Buenas, despues, como eu tinha poca côsa, tive que vendê o bolicho pra um turco que veio do Uruguai. Era uma época difícil pra todo mundo. A cada mêis, o dinheiro que eu tinha na algibeira não valia mais nada. Falavam numa tal de inflação, que fazia o dinheiro não valê nada e as côsa sempre custava mais. Fiquei sem nada. Tive que me virá e comecei a roubar gado. No começo, era fácil. Eu atravessava a frontera com uns peão e ia pro interior de Artigas. Lá a gente encostava um Ford velho, enchia de boi e se mandava de volta pra Quaraí.

– Então o senhor foi abigeatário?

– É… foi uma época complicada… senão morria de fome. Pelo menos eu comia um churrasco por dia. Depois que os castelhano nos descobriram, fui conhecê o capeta, o demo mesmo…

– Me explique isso, Seu Tertuliano…

– Pois é. Eu fui torturado. Me fizeram côsas que até Deus duvida. O cú véio, até hoje não aperta mais… mas deixa pra lá isso. Fui condenado e fiquei preso no Uruguai uns 2 anos. Quando saí, resolvi que nunca mais roubaria gado. Decidi que seria peão de estância. A vida era dura, mas eu tinha onde morá e comida no prato. Nos dias de inverno, meu poncho ficava duro de geada, mas eu acordava suado.

– E o senhor levou essa vida até quando?

– Bah… em seguida eu me cansei e voltei pra cidade. Eu ficava muito tempo sem prenda. Barranquear novilha não dava pra fazer todo dia… Consegui um emprego de segurança de baile. Côsa mui simples: se acontecia briga, eu e os vigia entrava no salão e afastava os índio vadio. Se percisasse, a gente batia de relho ou de porrete. Até se dizia na época que “quem briga na Bailanta do Licurgo acaba torto, preso ou morto”.

– E o senhor era violento nesses bailes?

– Óia… eu posso le dizê que era bastante respeitado por todos. Mas os forasteros que não me conheciam e brigavam, não voltavam nunca mais: uns por medo, outros porque morriam.

– E depois?

– Buenas, eu fiquei bastante famoso. Era o segurança mais temido da cidade. Eu dançava com muita china no baile e depois fazia ticau atrás do galpão. O problema é que um dia eu acabei fornicando com a filha do delegado, sem saber que ela era de menor. Tinha só 15 anos! A la fresca! A guria tinha uns tetão e nem virgem era! Uma mulé feita! Foi um furdunço na cidade quando o delegado descobriu tudo. Tive que me esconder na casa de um parente em Piratini para escapar da cadeia.

– O senhor ficou quanto tempo em Piratini?

– Poco tempo. Um ano depois o delegado foi morto num tiroteio com contrabandistas e pude voltar pra Quaraí. Entonces, a Bailanta do Licurgo já tinha sido fechada. Demorei a ter outro emprego. Acabei aceitando o serviço de coveiro.

– Até isso o senhor fez, Seu Tertuliano?

– Pois é. O brabo era aguentar o fedor dos defunto e choro de carpideira. Enterrei muita gente: bandido, criança, político, milico e até padre. Em algumas noite, eu via alma penada e barulhos estranhos no cemitério. Mas eu não tinha medo. Acabei saindo desse emprego e fui convidado a concorrer a vereador pelo partido da oposição.

– E como foi a eleição?

– Um fiasco! Ganhei só 11 votos. Mas mesmo assim meu partido foi vencedor nas eleição e o novo prefeito me convidou pra ocupá um cargo de confiança. As minha tarefa não eram tão simples: eu era o responsável pelas licitação do município.

– Como foi a sua atuação?

– É… aconteceram umas côsa que a gente não pode divulgá, sabe como é… mas posso le adiantá que o tal de Ministério Público investigô todo mundo e até cadeia uns companheiros pegaram. Teve também uns causo com meio ambiente e o IBAMA processô à torto e à direito. Só sei que eu não tinha responsabilidade nenhuma, não sei o que aconteceu, mas abriram uma conta num banco pra mim. Fui ver e tinha muito dinheiro. Quase tudo eu tive que dar pra um companheiro do partido e me sobrou uns pila que serviram pra comprá essas terra que tu tá vendo e todo esse gado que pasta pelo campo a fora…

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comentários
  1. Crânio disse:

    E agora somos brindados com um poema-biografico gaudério! A la fresca, te mete com este indio velho heim!!??

  2. BigDog disse:

    Tchê, rachei o bico aqui no trampo. A galera tá achando que enlouqueci de vez!

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