Frases soltas são ruins

Publicado: 23/07/2008 por Crânio em Um muito sobre nada...

Não gosto muito dos telejornais brasileiros pois acho que são veículos destinados a desinformação da população. Não tenho mais acesso a TV paga e agora descobri que a internet também não ajuda muito na informação. A não ser que “cavoquemos” muito o lixão até encontrar algo útil.

Tentando acompanhar mais uma rodada de negociações da agenda Doha (mais conhecida como Rodada Doha, pois nesta cidade começaram as rodadas de negociações), encontrei uma série de matérias, em diversos sites, criticando a frase do Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em que ele compara a postura dos países ricos em relação a globalização e o marketing nazista

“Essa é uma frase sob medida para aqueles que não querem fazer sua parte em agricultura”….”Isso me recorda Goebbels”

Aí reproduziram só o final da frase…pronto! Muitas otoridades ficaram ofendidas, desqualificaram o Ministro, alguns tentaram colocar panos quentes. Mas o estrago já estava feito, tal a quantidade e direcionamento das matérias nos sites, sempre desqualificando a frase do ministro brasileiro e dando mais espaço ao comentário dos ofendidos.

(Quando o presidente americano chamou a tríade Irã, Iraque e Coréia do Norte de “Eixo do Mal”, lembrando a 2º Guerra Mundial, não deram espaço aos ofendidos pela frase. Mas devem existir muitas pessoas que não concordam com esta frase)

Na verdade, o problema da Rodada Doha é muito mais complexo do que a frase de Celso Amorim, a dor dos ofendidos ou algo que a nossa vã imaginação tenta alcançar.

Os EUA e a UE possuem sistemas de subsídios agrícolas que beiram os US$ 100 bilhões de dólares por ano. Subsídios estes que eles estão esperneando muito para cortar, pois garantem a manutenção de uma classe agrícola produtiva e rica. Mas sem subsídios não se sabe qual será o futuro destes. Ao mesmo tempo eles querem que todos os países do mundo abram os contratos públicos para concorrência internacional, além da liberalização do comércio de produtos industrializados. Brasil e muitos outros países têm em seus contratos públicos uma forma de garantir espaço para empresas nacionais na economia. O nó é grande e enquanto alguns tentam desatar muitos continuam a apertá-lo.

Hoje, na lista de produtos agrícolas, a UE tem 40% de ítens em que ela não aceita liberalizar o comércio. Eles acham que açúcar e arroz não são produtos tropicais, logo querem proteger seus produtores. Se eles precisam proteger, é porque não são produtivos; não são produtivos porque estes produtos não são para climas temperados!

É muito interessante a postura do G20 (grupo de países em desenvolvimento, capitaneado por China, Brasil e India), barrando as propostas pouco decentes dos países ricos. Eles notaram que precisam ganhar tempo para adaptarem-se e concorrerem em menor desigualdade com países ricos. E os países ricos precisam urgentemente de novos mercados para seus produtos e empresas. Ou correm o risco de verem suas empresas migrarem para os países em crescimento.Mas os países do G20 sabem que o capital produtivo irá procurar os países mais rentáveis se a Rodada Doha não se definir.

Há o risco de que alguns países busquem acordos bilaterais e enfraquecerem a abertura do comércio mundial. Mas é do jogo. E o jogo é pesado e os países em desenvolvimento precisam entrar para ganhar, pois as definições desta rodada irão nortear todas as legislações mundiais a respeito de comércio exterior. E definições não muito boas hoje tornar-se-ão muito danosas amanhã.

Na verdade, o que os países ricos querem da globalização é o comprometimento do “ovo com bacon”. Eles irão fazer a parte da galinha, cedendo o ovo. E aos países em crescimento, como o Brasil, é esperado a parte de comprometimento do porco…morrer para ceder o bacon.

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