As melhores coisas da vida

Publicado: 11/05/2008 por Crânio em Não há o que não haja!, Um muito sobre nada...

Se resolvessemos fazer uma lista das melhores coisas da vida, algo bem ao estilo dos tablóides ingleses, encontraríamos muitas esquicitices e algumas unanimidades. E acredito que entre as unanimidades estariam amigos e cerveja.

Amigos não servem apenas para dividir nossos problemas ou pedir dinheiro emprestado. Bons amigos (ou melhor AMIGO) são aquelas pessoas que sabem discordar do seu ponto de vista sem criar constrangimentos. E fazendo isto, nos ajudam a melhorar a forma de encarar assuntos, problemas, circunstâncias, momentose outros “quetais”. E claro, cerveja é sempre um ótimo acompanhamento para uma conversa!

Buenas, em uma das tantas cervejadas filosóficas ou assembléias da ABRIC, adentramos o tema do perfil industrial brasileiro. Entre tantos pensamentos e argumentos utilizados no debate estavam que os produtos desenvolvidos neste país são de baixa intensidade tecnológica, que os itens mais tecnológicos são importados, que não se investe em tecnologia, que os chineses é que estão certos, que o Steve Jobs é o cara,e por aí vai.

Até contra-argumentei de que o governo atual atua, mesmo que timidamente, para reveter este quadro; que é do conhecimento deste governo estas limitações do nosso parque industrial (inclusive citei frase do diretor da Cientec em que ele compara o preço de nossas exportações com o preço de nossas importações, ou seja 1kg de soja e “1kg de computador”, genial!!!). Somos um país muito agrícola e um pouco industrial. E quase nada tecnológico.

Como toda discussão de boteco (e as assembléias da ABRIC são um boteco retocado) não chegamos a acordos ou conclusões. E fiquei pensando no assunto.

Claro, à toda hora todos querem trocar de celular. Todos querem o iPod mais moderno, o iPhone mais moderno, o iRaios mais sofisticado, mais chamativo, mais…mais..sei lá, o importante é consumir e ter. E quanto mais caro for a traquitana que você comprar, mais um empresário irá lucrar. Para ser caro, precisa ter funções novas, mais espaço de memória, mais versatilidade, interatividade, conectividade e outras tantas palavras que cairam numa vala comum dos comerciais e que geram valor agregado (ou percebido) ao produto. Ou seja, torna ele mais caro.

Não discordo que muitos itens são uns verdadeiros achados e que facilitaram muito a vida moderna. O celular e a internet transformaram a sociedade. Qualquer pessoa com mais de 35 anos (me entreguei) sabe muito bem a dificuldade para obter informações há 20 anos atrás e a facilidade -que vulgariza- de hoje. Os aparatos tecnológicos democratizaram os meios de expressão, abrindo novos caminhos para muitos apresentaram suas habilidades (quem poderia imaginar, há 20 anos atrás que eu estaria escrevendo um texto que alguém em qualquer lugar do mundo pode ler?).

Com o crescimento de China, India, e até Brasil (sim, os pobres estão virando classe média para horror dos ricos), somados à riqueza crescente de alguns países do Oriente Médio e a necessidade que nós consumidores temos de que nos apresentem coisas que facilitem a vida, a industria de bens tecnológicos descartáveis de consumo (expressão criada agora por Crânio) é certamente a com maiores possibilidades de crescimento, podendo gerar muita riqueza e alguns empregos. Mas será que devemos nos ater somente à eles?

A atual crise dos alimentos, que gera discussões mundo afora (alguns colocando culpa nos biocombustíveis, outros no aquecimento global, mais alguns nos subsídios agrícolas e por fim, nos pobres, que agora estão comendo!), abre espaço para a discussão sobre intensidade tecnológica e necessidade prática.

Alguém come celular, iPhone ou iPod?

Existem muitas possíveis razões para a atual crise dos alimentos. Mas uma certeza: o tiro certo dos governos militares ao criarem a Embrapa.

O governo militar, que veio para afastar qualquer possibilidade de existir um governo semelhante ao da União Soviética no Brasil, copiou em muito os governos “comunistas” ao criar um sem-fim de estatais. E uma delas, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), muito ajudou a colocar o país na vanguarda tecnológica da produção de alimentos, aumentando a produtividade agropecuária, desenvolvendo e democratizando tecnologia agrícola.

Como produção agrícola não é mais uma roça e sim algo muito sério, desenvolveu-se por reboque, ma série de serviços tecnológicos agregados ao setor agropecuário. De implementos com controle e automação aos softwares de gerenciamento, temos uma indústria de valor agregado destinado ao agrobusiness (odeio esta palavra, mas todos usam), com geraçaão de tecnologia e empregos aqui no Brasil. E que certamente muitos países terão que importar para resolver seus problemas.

Porque além dos amigos e da cerveja, precisamos de comida também.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    Conclusão: se o Brasil não modificar sua sistemática de monocultura voltada tão-somente para a exportação de grãos (leia-se SOJA), além do incremento da produção para os “novíssimos” biocombustíveis, também poderemos experimentar, muito em breve, escassez de arroz, trigo, feijão, batata, enfim, produtos que serão vendidos à preços exorbitantes. Paralelo à isso vem o paradoxo da tecnologia: toda a parafernália que está ao nosso alcance ficará mais barata, mas a comida, não.
    Povo melhor informado e mais faminto…
    Alguém enxerga algo destoante disso??

  2. BigDog disse:

    Olha, eu sou um cara bem suspeito para falar disso, porque acho que a saída é a produção de bens tecnológicos descartáveis de consumo, como diz o Crânio. Claro que precisamos de comida, ninguém sequer discute isso, o problema é que não estamos mais aptos a continuar sendo o “celeiro do mundo” (pausa para risadas), exportando a rodo o que produzimos. É um fato que as terras cultiváveis necessárias para a manutenção do biocombustível como fonte primária de energia, considerando toda a demanda mundial, é muito maior do que podemos oferecer e se não tivermos um rápido planejamento de como equalizar isso – seja explorando outras fontes de energia que temos em abundância, seja incentivando a produção de gêneros alimentícios – corremos o risco de enfrentar esse cenário de escassez e alta dos preços dos alimentos. O que eu sempre digo, e vou repetir, é que dá para agir nas duas frentes. Não podemos, de maneira nenhuma, é aderir cegamente à exigência mundial de produção de álcool e biodiesel, sem repensar como produzir alimentos ao mesmo tempo. E devemos, antes de mais nada, agir de maneira a produzir coisas que, mesmo desnecessárias, todo mundo queira, porque é assim que países minúsculos e sem produção significativa de alimentos conseguem divisas para importar o que precisam. Esse o meu paradoxo: porque não ser o país da comida e do iPod ao mesmo tempo?

    Em tempo: eu adoro meu iPod, e certamente comprarei outro quando o seu Jobs lançar um que me interesse. Não acho nada errado nisso… Cada um com sua cachaça… hehehehehe.

  3. Crânio disse:

    É possível ser o país da comida e ganhar mais dinheiro que o do iPod. A Alemanha não é o país do iPod, mas é o país que faz as máquinas que fazem o iPod. E só eles fazem. Eles são os donos da tecnologia que produz futilidades tecnológicas. E dá mais dinheiro (porém menos visibilidade) que fazer iPod. Tanto é que a Alemanha tem o maior saldo comercial do mundo.
    E o Brasil tem isto atualmente: tecnologia para fazer comida, que é algo que todos precisam…e vão pagar mais do que iPod.

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