A nova dinâmica do futebol: o espírito superando a matéria

Publicado: 07/03/2008 por Wolfarth em Cultura nunca é demais!, Tosco Futebol Clube

Por Felipe Wolfarth

Desde os primeiros anos do novo milênio estamos percebendo no mundo do futebol um inusitado fator ainda inominado e em constante aperfeiçoamento, que tem levado equipes com menor capacidade técnica e financeira a derrotar rivais poderosos e obter conquistas outrora inimagináveis. Segue uma breve digressão histórica da questão primordial do futebol, que é a obtenção da vitória e os meios encontrados para vencer nas adversidades.

Antigamente, excetuando-se as incipientes ligas nacionais, em poucos momentos havia intercâmbio de culturas táticas no futebol. Competições envolvendo clubes eram raríssimas e quase sempre muito onerosas para os clubes amadores e semiprofissionais existentes até a década de 30.

A FIFA, pensando no desenvolvimento do futebol, instituiu um torneio mundial de futebol envolvendo seleções nacionais, que aconteceria a cada quatro anos, a partir de 1930. Foi a gênese do futebol organizado e o fim definitivo do amadorismo.

Com isso, surgiu a miscigenação de estilos que, até então, era simplificada por: técnica + truculência dos castelhanos; técnica + malandragem dos brasileiros; e, técnica + estratégia dos europeus.

Com o desenrolar dos mundiais, alguns países, principalmente os menos dotados de potenciais técnicos, passaram a copiar estilos vitoriosos, visando o aprimoramento de suas equipes. À medida em que algumas seleções protagonizavam belas apresentações nas Copas do Mundo, foram sendo adotados modelos que permaneciam até quando outro esquema tático trouxesse inovações.

Naquelas priscas eras, ocorreram poucos, porém importantes resultados surpreendentes: Uruguai 2 x 1 Brasil, na final Copa do Mundo de 1950, e Alemanha 3 x 2 Hungria, também na derradeira contenda de 1954.

Em 1950, o Brasil vinha de goleadas fantásticas nos jogos anteriores à final (7 x 1 na Suécia e 6 x 1 na Espanha), havendo um inevitável clima de otimismo que contagiou torcedores, imprensa e o próprio selecionado nacional. Até hoje, nem mesmo os uruguaios entendem como venceram aquela partida, disputada no Maracanã diante de 200 mil expectadores.

Também a Hungria, em 1954, vinha de um período de invencibilidade de 31 jogos quando perdeu para a Alemanha na final da Copa, mesmo tendo surrado os próprios alemães por 8 x 3 na primeira fase daquele mundial. Inexplicável até hoje, para alemães e húngaros.

Tais imprevistos eram exceção à regra do favoritismo declarado que vigia à época. Quando uma equipe de futebol era favorita ou possuía bons jogadores do ponto de vista técnico, haveria de ganhar a partida. Algo como ocorre no basquete.

Entre 1957 e 1964, contando com Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Vavá, Amarildo, os brasileiros eram realmente os melhores.

Quando a seleção brasileira venceu a Copa do Mundo de 1970, no México, com uma constelação de craques que jogava por sintonia fina derrotando a Itália por 4 x 1 na finalíssima (1), os europeus se perguntaram: como faremos para pôr fim à supremacia técnica dos sul-americanos se nossos atletas não conseguem ser tão bons tecnicamente? A saída encontrada e desenvolvida à curto prazo foi a preparação física aliada à utilização de esquemas táticos que exigissem a constante ocupação de espaços no campo.

A seleção da Holanda, treinada por Rinus Michels, foi o primeiro exemplo prático do novo pensamento europeu, ao maravilhar o mundo com o esquema carrossel holandês, no qual os jogadores não guardavam suas posições, ora atacando, ora defendendo, com seguidas variações táticas e com ampla utilização do overlaping (lançamento para o ponto futuro). Inclusive, Michels afirmou anos mais tarde que a implantação do complexo esquema tático somente fora possível pela inteligência incomum dos seus atletas.

Coincidentemente, algumas das vítimas da laranja mecânica na Copa de 1974 foram uruguaios (2 x 0 na estréia), argentinos (4 x 0 na segunda fase) e brasileiros (2 x 0 na semifinal). Show de bola e de objetividade de atletas verdadeiramente foras de série para a época (2).

Registre-se, ademais, que os holandeses já eram vencedores no âmbito clubístico, em especial com quatro conquistas seguidas de Ligas dos Campeões da Europa no início da década de 70 (3).

Apesar de tudo isso, não superaram a obstinação pela vitória e o vigor físico dos alemães na derradeira pugna do mundial de 1974 (derrota por 2 x 1), suplantando aquela que foi a maior inovação tática de todos os tempos, que era extremamente avançada para o momento, no qual a Seleção brasileira, por exemplo, ainda atuava com o arcaico 4-3-3.

Também a Polônia conseguiu excelentes resultados utilizando um esquema que formava blocos de ataque e defesa que possibilitou a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1972. Na Copa do Mundo de 1974, os poloneses obtiveram 6 vitórias em 7 jogos, dentre as quais um 3 x 2 na Argentina, 2 x 1 na Itália e 1 x 0 no Brasil, terminando o torneio no terceiro posto. Somente foi derrotada na semifinal pela anfitriã e campeã Alemanha por um apertado 1 x 0.

Sintetizando: as vitórias da Alemanha na Copa do Mundo de 1974, da Argentina em 1978 (4) e da Itália em 1982, sedimentaram o conceito do futebol-força que foi elaborado para causar danos no estigma técnico e vencedor dos sul-americanos, especialmente dos brasileiros, que viam sua capacidade criativa ser insuficiente para vencer a preparação física.

Em 1986, lampejos de técnica proporcionadas por Maradona puseram luzes de pirilampos no túnel galgado pelo esporte bretão, que, afinal, não representaram quase nada depois que a Alemanha (1990), Brasil (1994) e França (1998) venceram Copas do Mundo jogando um futebol que visava exclusivamente resultados.

Quando a Seleção brasileira venceu a Copa do Mundo de 1994 jogando um futebol defensivo e pragmático, houve uma ruptura definitiva de tudo aquilo que existia em torno da dissensão técnica x tática.

Foi o final de qualquer esperança de ver a retomada do futebol romântico, aquele baseado unicamente na técnica, refinamento, plasticidade e busca frenética de gols.

A postura das equipes do mundo todo passou a ser, salvo raras exceções: evitar o gol do adversário usando atletas toscos, marcar implacavelmente, treinar exaustivamente as bolas paradas e, quiçá, fazer um gol para depois fechar-se defensivamente e garantir o 1 x 0. Foi-se o belo, o onírico. Restaram a simplicidade, o pragmatismo, a preparação física e o perfeccionismo tático como herança da evolução futebolística ao longo de um século de competições.

Mas, apesar de tudo isso, os apreciadores do futebol bem jogado não deixaram de acompanhar o esporte, o qual prossegue sua sina de cativar e apaixonar a cada dia milhares e milhares de novos adeptos. O surgimento dessa nova dinâmica tática possibilitou um maior acesso dos países e clubes periféricos às competições de alto nível, sem que isso represente apenas participações honrosas. Todos passaram a ter condições de vencer. Nada ficou impossível, pois a técnica foi suplantada pela organização e pelo planejamento.

A seleção brasileira foi protagonista dessa nova ordem estabelecida. Vamos aos fatos.

Em 2000, no ápice de uma crise técnica sem precedentes, após a derrota contundente para a França na final da Copa de 1998 (3 x 0), houve uma escassez momentânea de ídolos e de brilhantismo, amplificada pela eliminação da Seleção olímpica frente Camarões, em Sydney (5).

Paralelo à isso, os brasileiros tiveram uma trajetória negativa sem precedentes nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 sofrendo 6 derrotas, algumas das quais para adversários que nunca haviam superado o Brasil em certames idênticos (6). Igualmente, o Brasil foi eliminado pela desprezível seleção de Honduras na Copa América de 2001, com derrota por 2 x 0, em um dos maiores fiascos da história do futebol contemporâneo.

A troca constante de treinadores (Wanderley Luxemburgo, Émerson Leão, Candinho e Luiz Felipe Scolari) exemplifica o momento de confusão vivida em um período de poucos meses.

Ao mesmo tempo em que conseguiu a vaga na Copa de 2002 na base da superação, em mero 3º lugar (atrás da Argentina e do Equador), Scolari providenciou mudanças na filosofia de trabalho que campeava nos grupos canarinhos.

Formou-se uma família na Seleção brasileira e o planejamento foi minuciosamente imposto por Felipão. Poucos acreditavam que o Brasil desbancaria os favoritos do momento – França e Argentina – e outros postulantes ao título (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha). Pela primeira vez em muitas Copas do Mundo (talvez desde 1958) que o país não figurava como favorito ao título, até porque seus melhores atletas não vinham de boas temporadas na Europa.

Ronaldo vinha da convulsão de 1998 e seguidamente acometido de moléstias. Rivaldo estava decadente e opaco. Ronaldinho Gaúcho era uma promessa maculada pela eliminação vergonhosa nos Jogos Olímpicos de 2000.

O resto do time-base era formado por jogadores medianos. Marcos, um regular goleiro do Palmeiras. Cafu, um bom preparo físico. Edmílson, Lúcio e Roque Júnior eram zagueiros de clubes europeus emergentes. Roberto Carlos estava marcado pela preguiça e pelas bombas à esmo. Gilberto Silva e Kléberson eram ilustres desconhecidos. Denílson, um exímio driblador, mas sem qualquer efetividade. E Juninho Paulista, um corpo desprovido de sustentação.

Enfim, eram atletas que não gozavam da simpatia nacional, relegada exclusivamente ao choro de Romário, atleta que fora deixado de lado por Scolari por alegada falta de comprometimento com o grupo.

As características básicas para integrar a Seleção brasileira foram assim definidas: união, disciplina, humildade e pegada. E, assim, com a desconfiança geral do povo, o Brasil voou para a Coréia do Sul.

Em 2002 houve uma Copa interessante. Na estréia, Senegal venceu por 1 x 0 a França, favoritíssima ao título. Depois, a França empatou sem gols com o Uruguai e caiu estatelada frente a Dinamarca por 2 x 0. Foi eliminada na primeira fase e não marcou sequer um gol. Pecou pela soberba e pela falta de renovação do grupo campeão de 1998.

Já a Argentina perdeu para a Inglaterra por 1 x 0 e empatou com a Suécia em 1 x 1. Também foi eliminada na primeira fase, castigada pelo azar e pelas escolhas equivocadas do treinador Marcelo Bielsa.

Outros favoritos foram sendo defenestrados do torneio aos poucos: Portugal, igualmente na primeira fase, ao perder para a Coréia do Sul por 1 x 0. Itália, nas oitavas-de-final, também morta pelos coreanos, por 2 x 1 no golden goal. Espanha, nas quartas-de-final, terceira vítima fatal do implacáveis sul-coreanos, nos pênaltis.

Enquanto isso, o Brasil seguia sua trajetória sem percalços no mundial, vencendo todos os seus adversários: Turquia (2 x 1), China (4 x 0), Costa Rica (5 x 2) e Bélgica (2 x 0).

Nas quartas-de-final, houve o confronto mais difícil, contra a Inglaterra de Beckham, Owen e Scholes. Com grandes atuações individuais de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, aliada à aplicação tática imposta por Felipão, o Brasil venceu os ingleses por 2 x 1, de virada.

Na semifinal, 1 x 0 na Turquia. E, na grande final, o duelo mais aguardado da história das Copas do Mundo, mas totalmente inesperado para 2002: Brasil pentacampeão com um 2 x 0 na Alemanha.

A Seleção brasileira sobrou fisicamente na competição, vencendo seus 7 jogos sem necessitar de prorrogação. Superou as táticas adversárias e ainda impôs momentos de alguma técnica. Marcou 18 gols e sofreu 4. Foi o melhor desempenho, em termos numéricos, de uma seleção campeã do mundo em todos os tempos. Campeão com alma e coração.

Além disso, a Copa do Mundo de 2002 apresentou uniformidade dos esquemas táticos utilizados pelas 32 seleções, com poucas variações entre o 4-4-2 e o 3-5-2, aliado à surpresa no resultado final de algumas partidas: nada menos do que 22 dos 64 jogos tiveram resultados inesperados. As equipes do Senegal, Estados Unidos, Coréia do Sul e Turquia foram as maiores zebras, todas atingindo as quartas-de-final da Copa (7). Foi um sinal dos tempos.

Mas a lição que deve ser extraída da Copa do Mundo de 2002 é a de que uma Seleção (ou clube) só vai vencer competições com planejamento, com entrega, com aplicação tática, com humildade e apego aos detalhes de cada partida. Um time técnico pode vencer um jogo, mas não um campeonato. Só um grupo comprometido com o objetivo poderá manter-se vencedor e impor hegemonia de conquistas.

Todo esse escorço histórico serve como referência para apontar as causas da nova dinâmica do futebol. No momento em que os resultados passam a ser inesperados e a ousadia tática não é suficiente para vencer partidas ou competições curtas, temos um novo elemento que distingue equipes de futebol. Alguns preferem chamar de temperamento ou entrosamento. Muitos afirmam que são times focados no objetivo. Outros dizem ser espírito de equipe. De fato, são equipes com alma vencedora, algo que supera a dimensão material enfrentada.

E tudo isso debelou-se em 2004, que foi um ano pródigo em surpresas. Algumas equipes sem qualquer tradição ou técnica dominaram as competições realizadas em 2004, no qual aconteceram, ao menos, 8 surpreendentes aparições:

– A seleção da Grécia, que foi campeã européia ao derrotar Portugal (de Felipão) por 1 x 0 em Lisboa, superando França e República Tcheca nas fases anteriores;

– Once Caldas (COL), que arrebatou a Libertadores da América na final contra o Boca Juniors, tendo eliminado o São Paulo na semifinal;

– Porto (POR) e Monaco (FRA), que fizeram uma improvável final de Liga dos Campeões da Europa vencida pelo clube português por 3 x 0;

– Santo André, que conquistou a Copa do Brasil ao vencer o Flamengo no Maracanã por 2 x 0, única conquista do clube até hoje;

– São Caetano, que tornou-se campeão paulista ao derrotar na final o Paulista, da cidade de Jundiaí, o qual havia sido campeão da Copa do Brasil no ano anterior;

– Valencia (ESP), que cumulou os títulos de campeão espanhol e da Copa da UEFA;

– Ulbra, vice-campeã gaúcha, surrando o vilipendiado Grêmio na semifinal pelo placar de 3 x 1 (8);

– E, por fim (por que não?), a Seleção brasileira, jogando com sua equipe B, derrotando a Argentina nos pênaltis na final da Copa América disputada no Peru.

Importante ressaltar que a cada ano temos mais e mais surpresas acontecendo no cenário futebolístico. O que era para ser exceção virou regra: equipes pequenas e médias vencem campeonatos difíceis e, por outro lado, clubes grandes e tradicionais protagonizam vexames.

Obviamente que o investimento no futebol, principalmente em estrutura e em aquisição de atletas é bastante eficaz para a obtenção de vitórias. Mas, por outro lado, temos que é inegável que atletas de renome sem motivação, sem identificação com o clube e sem interagir com o grupo, não são suficientes para levar um time às alturas. Logo, a alma, o espírito de equipe é elemento que faz fluir o jogo, que faz Davi derrotar Golias.

Com efeito, é necessário gizar que o enfoque adotado neste artigo é gnoseológico (conhecimento) e metafísico (ser ou não ser), não sendo apenas voltado para a constatação óbvia de que quem vence é o melhor. O futebol é um esporte único, onde os melhores necessitam provar sempre, em campo, que merecem vencer.

Aliado à isso, temos que a aparente falta de investimento no futebol brasileiro não está conduzindo o país à estagnação técnica. Pelo contrário. O Brasil exportou mais de mil jogadores para o exterior em 2007 e seus clubes continuam vitoriosos em competições internacionais. O curioso é que esse êxodo tem sido vital para os clubes nacionais, uma vez que o dinheiro oriundo das transações garante a manutenção do salários, da estrutura e da formação de futuros craques nas categorias de base. Além disso, à medida em que exporta jogadores jovens, os clubes brasileiros buscam atletas mais consagrados que passam por períodos de relativa desvalorização no exterior. O que existe no Brasil é uma eficiente máquina mercadológica a serviço do futebol.

Ao mesmo tempo, o crescimento financeiro do mercado do futebol brasileiro possibilita também a importação de jovens valores estrangeiros, especialmente da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Colômbia. Em alguns casos, antes das promessas dos vizinhos rumarem diretamente para a Europa, são testados no cenário tupiniquim, que é mais exigente que o de seus respectivos países. Não raro ocorrem casos de grandes clubes brasileiros possuírem 4 atletas estrangeiros durante uma mesma temporada, mesmo podendo utilizar apenas 3 deles durante um jogo.

Neste talante, interessante confrontarmos a situação dos estrangeiros no futebol brasileiro com algumas ligas européias. Clubes da Itália, Espanha, Inglaterra e França possuem em seus grupos mais de 50% de estrangeiros, oriundos sobretudo da América do Sul, África e de países periféricos da Europa. Tal situação denota uma fragilidade dos europeus ocidentais em gerar novos jogadores, modificando a forma de jogar até mesmo de suas seleções nacionais.

Aliás, o que se espera (inclusive já ventilado pela FIFA) é o fim gradativo das seleções nacionais da Espanha e da Inglaterra, pois percebe-se uma ausência de jogadores de alto nível nos setores de meio-campo e ataque dos selecionados desses países, diretamente ligada ao pouco investimento na base, incapaz de formar atletas do mesmo quilate dos sul-americanos e africanos. Logo, esses clubes não geram jogadores nativos e suas seleções naturalizam estrangeiros.

Porém, há uma exceção na Europa. Apenas a Itália vem conseguindo manter a identidade nacional de seu futebol, pois tradicionalmente seus jogadores possuem espírito patriótico e alma vencedora. Como exemplo recente, temos a seleção italiana de 2006. Com lideranças técnicas em cada setor da equipe (Cannavaro, Pirlo e Totti), juntamente com seus gladiadores-trogloditas (Zambrotta, Materazzi, Grosso, Gattuso, Perrotta, De Rossi e Toni) venceu a última Copa do Mundo graças à união e o espírito vencedor contagiante do grupo.

Enfim, no mesmo ano tivemos o melhor exemplo a ser citado nos últimos 20/30 anos de futebol. Embora muitos tentem esquecer, quiçá menosprezar, em 2006 o Inter venceu a Libertadores da América, superando o São Paulo na finalíssima, e o Mundial de Clubes da FIFA, derrotando o poderosíssimo Barcelona. Já em 2008, o Colorado venceu o Torneio de Dubai dando uma aula de determinação e aplicação tática na Internazionale de Milano, até então invicta por vários jogos na Europa, tendo em seu grupo atletas de várias seleções top.

Qual é a explicação para essa senda de vitórias de um clube tido como grande apenas no cenário brasileiro, mas que não vencia nada há décadas? Como justificar o fato de que o Inter, clube de estrutura limitada, tenha superado adversários infinitamente mais poderosos do ponto de vista financeiro e técnico?

Uma análise superficial dos resultados atuais do futebol permite enxergar uma quantidade incrível de zebras em todos as competições.

As idiossincrasias contidas em cada time de futebol podem ser controladas em benefício do todo. A repetição de movimentos e o esforço pleno em prol de um benefício comum é a resposta. Mais do que isso: ter alma. Essa palavra tão pequena, contendo 4 letras, é praticamente inexplicável do ponto de vista científico. Ter alma, no futebol, muitas vezes é efêmero. Uma hora acaba. Mas, analisando-se todo o contexto exposto, trata-se do nó górdio que deve ser desvendado para possibilitar a descoberta da fórmula vencedora.

Recado para os co-irmãos da freguesia lindeira: se o clube é brasileiro, não basta ter alma castelhana. Para quem já morreu tantas vezes, a mudança de nacionalidade da alma parece ser uma explicação bastante convincente.

Ainda bem que o Sport Club Internacional tem alma brasileira!


(1)- Seleção brasileira da final da Copa do Mundo de 1970: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino.
(2)- Time-base da Holanda na Copa do Mundo de 1974: Jongbloed, Suurbier, Rijsbergen, Jansen, Krol, Haan, Van Hanegem, Neeskens, Cruyff, Rep e Rensenbrink.
(3)- O Feyenoord, em 1970, e o Ajax, em 1971, 1972 e 1973, venceram a Liga dos Campeões da Europa, denotando toda a supremacia tática holandesa na época.
(4)- Os argentinos venceram a Copa de 1978 amparados por forças ocultas e pela complacência da FIFA. Quem nunca ouviu falar do jogo em que a Argentina venceu o Peru por 6 x 0, quando necessitava fazer 4 gols de diferença para ir à final da Copa de 1978 e eliminar o Brasil no saldo de gols?
(5)- Nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, o Brasil foi derrotado por Camarões pelo placar de 2 x 1, no golden goal, mesmo com 2 atletas a mais em campo.
(6)- A Seleção brasileira sofreu 6 derrotas em 18 jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, contra o Paraguai 2 x 1, Chile 3 x 0, Equador 1 x 0, Uruguai 1 x 0, Argentina 2 x 1 e Bolívia 3 x 1, todos disputados fora do Brasil.
(7)- Na Copa do Mundo de 2002, a Turquia finalizou em 3º lugar, Coréia do Sul em 4º, Senegal em 7º e Estados Unidos em 8º.
(8)- Também podemos registrar que em 2004 aconteceu não uma façanha, mas algo que está se tornando assaz corriqueiro, que foi o segundo rebaixamento do Grêmio para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Os gremistas vivenciaram um exemplo de falta de planejamento, de incompetência administrativa e de total ausência de comprometimento dos atletas, que pareciam mais interessados nas orgias homossexuais que praticavam no suntuoso ônibus do clube, único orgulho do ex-presidente Flávio Obino.
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comentários
  1. BigDog disse:

    Alemão, meu filósofo do esporte bretão, não tinha comentado ainda porque queria ler com calma e atençao devida o sensacional ensaio. Tchê, larga o direito e vai ser comentarista esportivo! Não tenho nada a dizer sobre a matéria, porque sequer inicio a ter a tua visão sobre o assunto. Aquele abraço!

  2. Crânio disse:

    20 minutos de ótima e prazeirosa leitura. Muito conhecimento técnico aliado a incrível capacidade de organizar os dados e tirar daí conclusões para que os nobres leigos como eu possam melhorar sua compreensão sobre este esporte que à todos apaixona. Parabéns!!!!!

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