Ainda na corda bamba

Publicado: 18/08/2007 por BigDog em Isto é Brasil...

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, o bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarices
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Composta em um dos períodos mais conturbados da vida política brasileira, ‘O Bêbado e o Equilibrista’, de Aldyr Blanc e João Bosco, se transformou em um hino durante o movimento ‘Diretas Já’, que pedia a redemocratização, o fim da ditadura e a realização de eleições diretas para Presidente. Não conseguiu, e Tancredo Neves, após um acordo com a cúpula do regime militar, foi eleito presidente pelo mesmo colégio eleitoral que havia conduzido todos aqueles generais tacanhos ao cargo. Não é uma letra de fácil compreensão, é claro, porque com a censura em cima havia a necessidade de dizer o que se queria sem falar claramente o que se pensava. Julinho da Adelaide, o compositor ‘oficial’ de ‘Apesar de Você’ – na verdade, Chico Buarque de Holanda – declarou ao órgão da censura que o ‘você’ da música, que todo mundo sabia ser a ditadura militar, era, na verdade, uma mulher muito mandona, muito autoritária. Enfim, tempos de luta e repressão. Até hoje ‘O Bêbado e o Equilibrista’ é lembrada pela esperança que transmitia, pedindo a volta do irmão do Henfil – o sociólogo Herbert de Souza, que iniciou o movimento de combate à fome e até hoje deve se retorcer no túmulo com o uso político do ideal -, lembrando o choro das viúvas dos desaparecidos – Marias e Clarices -, tudo num contexto histórico retratado como uma corda bamba, da qual se esperava ver o fim sem nenhuma queda mortal.

Feliz daquela geração, que tinha esperanças, que sofreu como poucas na história, mas que viu sua corda bamba chegar ao fim. Esperavam eles que, a partir daquela plataforma final, o solo fosse mais firme e o equilibrista seguisse a passos mais largos e tranqüilos. Pobre daquela geração, que está assistindo – alguns sem conseguir sequer encontrar uma explicação – tudo o que aconteceu após o fim do regime militar. Colocamos todos os possíveis presidentes no cargo pelo voto direto. Cansados de corrupção e roubalheira, mudamos nossa visão medrosa da vida e apostamos na alternativa mais radical, a que prometia mudanças, aquela que todo mundo sabia que promoveria mudanças. Para melhor. E seguimos na corda bamba.

Eu não me disponho mais a conversar sobre política, economia e justiça social. Escrevo o que penso aqui, e por aqui vai ficando. Mas às vezes surge uma angústia, de que nada vai se resolver nunca, de que tudo ficará para sempre como está e sempre foi. Não há mais esperança, parece que jamais alcançaremos a plataforma do outro lado, sempre equilibrando – dinheiro, segurança, saúde – sem que ninguém nos dê um lampejo de esperança. Para onde se olha, roubalheiras, mortes, assaltos, desvios de dinheiro público, descaso, insegurança, doença, falta de saneamento básico, imposto e mais imposto, e nada, nem uma réstia de luz. Talvez o show desses artistas de sempre não deva continuar. A platéia está cansada.

E, a todas essas, o bêbado segue convicto de que tudo está bem.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    Tudo certo, Cachorrão…
    Corrupção endêmica, conformismo, ausência de esperanças e inércia.
    Era tudo o que essa corja, esse sistema vulturino, porcino e murídeo quis e conseguiu.
    Mas enquanto alguns poucos inconformados e cansados desse espetáculo (que prossegue sem intervalos) se negarem a baixar a cabeça e fazer de conta que tudo está normal, ainda poderemos conseguir mudanças. Eu ainda não descobri como propô-las ou fazê-las, até porque eu sou somente um grão de areia nesse deserto.
    Ainda não somos muitos grãos a ponto de convencer os demais a fazerem parte de uma obra maior, e não desse deserto, dessa aridez que é quase perene…

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