Incompetência, deboche e dez por cento

Publicado: 28/07/2007 por BigDog em Isto é Brasil..., Populítica

Pensei em escrever um longo texto indignado com o novo acidente aéreo brasileiro, aquele absurdo total que matou quase duzentas pessoas em Congonhas, mas isso seria chover no molhado. Todo mundo está indignado, não há quem não se sinta tocado pelo drama dos familiares de tantas e tantas pessoas que morreram absolutamente em vão, apenas por burrice, descaso e indiferença. Não perdi nenhum conhecido, apenas um ex-professor de direito administrativo – Paulo de Tarso Silveira – no acidente e isso já é mais do que suficiente. No meu artigo, citaria o outro acidente ocorrido no ano passado, com o avião da Gol que se chocou em pleno ar com outra aeronave que viajava na mesma altitude, matando mais 185 pessoas. O problema é que a indignação deveria se voltar, necessariamente, contra as autoridades responsáveis pelo caos aéreo que assola o país, a direção da ANAC, da INFRAERO, algum ministro e, fatalmente, ele, o néscio Molusco I, o convicto. E é justamente aí que reside o problema: ninguém está nem um pouco preocupado com os fatos. “Relaxa e goza” disse Marta Suplicy. “Top-top-top” fez Marco Aurélio Garcia, Assessor (prá-lá-de) Especial daquele analfabeto que dizem ser presidente. O problema é que as pessoas estão viajando demais de avião, tascou Zé Dirceu. Enfim, ninguém está nem aí, funcionários de alto escalão da ANAC – por sinal, dirigida pelo Milton Zuanazzi, que entende tanto de aviação quanto eu da fabricação de naftalina mas se intitula “Doutor” no site da ANAC – viajam de graça às expensas de empresas aéreas que deveriam estar fiscalizando. Sim, porque a função da ANAC é a de fiscalizar empresas aéreas, por isso se a TAM deixou vencer os prazos de manutenção da aeronave e causou o acidente, a culpa é, SIM, do órgão governamental encarregado dessa fiscalização. Se os controladores de vôo estão sobrecarregados, é culpa de quem os sobrecarrega. Ou alguém é capaz de defender a idéia de que eles, servidores públicos que são e, portanto, portadores de cérebros minúsculos, seriam capazes de deliberadamente causar um acidente para conseguir um aumento nos seus nababescos salários? Talvez o Charles, que acha que ganhar pouco mais de R$ 3 mil para controlar a vida de centenas de pessoas em pleno vôo é uma “boquinha”.

Mas deixa para lá. Ainda vou ter de ouvir algum PenTelho renitente dizendo que o problema é muito mais antigo, que desde o governo FHC já existe, etc, etc, e mais etc. Faz parte do programa de treinamento para ser petista assimilar essa balela: “já estava assim quando eu cheguei”. Como se a data de início de um problema fosse desculpa para evitar tomar alguma providência e solucioná-lo, ainda mais quando se é eleito para isso.

Por que estou escrevendo tudo isso, já que eu afirmei que não valia a pena tratar do assunto? Porque, morando no Rio Grande do Sul, assisti de camarote um governador (aquele de quem não pronunciamos o nome) deixar as estradas se deteriorarem a tal ponto que qualquer reforma seria uma dádiva para os usuários. A partir daí, foi só dar uma recapada rápida no asfalto, privatizar tudo para empresários amigões e botar os 10% no bolso. Hoje, o povo paga um absurdo de pedágio – diga-se de passagem, cuja prorrogação do prazo de exploração foi a primeira e única providência efetiva do governo Yoda até agora – mas não reclama, porque pelo menos morrem menos pessoas, quebram menos carros e existe um pouco mais de segurança. O número de vítimas do descaso calculado para acelerar o processo de privatização é uma incógnita, mas certamente não desprezível.

E eis que, no calor do maior acidente aéreo da história do Brasil, surge uma proposta do governo federal para abrir o capital da INFRAERO. “Abrir o capital” é um eufemismo petista para o verbo privatizar, expressamente vedado pela cartilha do partido, a não ser em frases negativas (“não iremos privatizar…”) ou acusatórias (“a culpa foi da privatização apressada…”). Não dá para pensar, muito, sobre o assunto? Quero dizer, se o caos for calculado e as mortes apenas contingência do plano? E se aquele amigo russo do seu Zé Dirceu, a quem este prometeu a VARIG mas não pôde entregar, resolveu agora não ser o dono da loja de laticínios, mas da vaca? Guardem este nome, Boris Berezovsky, e comparem com o resultado do leilão de “abertura do capital” da INFRAERO. E me cobrem depois.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    Cara… quando tu escreve sobre política, consegue dizer tudo o que muitos gostariam de falar, mas não teriam capacidade de colocar textualmente.
    Grande crítica.
    Assino embaixo.

  2. BigDog disse:

    Obrigado, meu. Fico envaidecido com o reconhecimento do nobre colega.

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