Foi o Ademar

Publicado: 21/06/2007 por Wolfarth em Tosco Futebol Clube, Um muito sobre nada...

Pênalti desperdiçado pelo jogador do Náutico na “Batalha dos Aflitos” criou uma nova realidade no futebol

Felipe Wolfarth

Os fatos ainda estão bem nítidos na memória de muitos. Mas poucos sabem o que realmente aconteceu.

Dia 26/11/2005, sábado, 16h. Estádio dos Aflitos, em Recife (PE).

Jogavam Náutico e Grêmio pelo Campeonato Brasileiro da Série B, a popular Segundona. Ao Grêmio, bastava o empate para ascender novamente à divisão de elite. Para o Náutico, só a vitória interessava para idêntica finalidade.

Depois de desperdiçar uma penalidade máxima batida na trave por Bruno Carvalho aos 33 minutos do 1º tempo, o time pernambucano pressionou o tricolor gaúcho em busca do gol até que o árbitro Djalma Beltrami apontasse novamente a marca da cal, de forma duvidosa, aos 34 minutos do 2º tempo. Foi o princípio do fim. Confusão total envolvendo os atletas do clube meridional e até integrantes ilustres da delegação. Em resumo, três jogadores do Grêmio foram expulsos por insubordinação e tentativa de agressão ao árbitro, juntando-se a outro que já havia sido defenestrado do jogo antes do tiro penal ser descoberto.

Acabada a desordem após 25 minutos de paralisação, restaram 7 atletas no time do Grêmio contra 11 do Náutico, além do pênalti a ser batido pelo time nordestino. Era a chance de ouro do Náutico finalmente retornar à Série A, da qual havia sido rebaixado no ano de 1994.

Ademar, lateral-esquerdo com 25 anos de idade, era quem estava ajeitando a bola na marca penal. Pausa.

Antes de retornar ao cenário fatídico, é conveniente registrar que na equipe alvirrubra estavam em campo ao menos três jogadores experientes e com alguma bagagem em competições nacionais, tais como Kuki (centroavante matador, ainda hoje no Náutico), Cleisson (volante veterano, que havia jogado no Grêmio anos antes) e Romualdo (atleta habilidoso, com experiência em clubes de Série A), os quais poderiam ter se habilitado para executar o importantíssimo tiro de misericórdia no visivelmente moribundo restolho de time gremista.

Mas, enfim, o desconhecido Ademar era quem pareceu ter mais coragem para bater na bola. Já eram 49 minutos do 2º tempo, mas o árbitro haveria de compensar a paralisação com mais 12 minutos, o que seria pouco para uma eventual reação gremista, mormente com 7 atletas contra 11.

O discreto camisa 6 tomou distância e todos puderam perceber um evidente nervosismo no semblante do atleta. Toda a esperança de milhões de torcedores e simpatizantes do Náutico e do Inter estavam nos pés de Ademar José Tavares Júnior. Ademar correu em direção da bola e, simultaneamente, o goleiro gremista Galatto já esboçava movimento de queda para o seu lado esquerdo. Com a perna esquerda, Ademar desferiu o chute. A bola foi colocada, à meia altura, no meio do gol, um pouco mais para a direita da meta, justamente em direção do corpo do arqueiro tricolor. O esférico explodiu no aleatório Galatto e se perdeu por sobre a trave.

Foi uma cobrança sofrível. O gol iminente havia se transformado tão-somente em um escanteio. Toda a apreensão momentânea acabara. E com ela, as esperanças de timbus e Colorados. Pausa.

Naquele instante, prezados leitores, estava sendo mudada a história, não só do futebol brasileiro, como também do futebol mundial dos primórdios do século XXI.

Retornando à pugna, parecia que uma chuva gelada estava desabando sobre as cabeças dos atletas do Náutico, dando-lhes a impressão de que nada faria a bola adentrar na meta dos visitantes. Logo depois, um zagueiro do Náutico também foi expulso por falta dura. Na cobrança, Anderson, atacante gaúcho de 17 anos, hoje no inglês Manchester United, recebeu a pelota e saiu em desabalada carreira rumo ao gol, sem que ninguém pudesse esboçar qualquer tentativa para impedir o tento.

Estava consolidada a ascensão do Grêmio à Primeira Divisão logo no ano seguinte ao seu merecido rebaixamento. Terminada a pugna, vencida com contornos de epopéia, os gremistas estavam eufóricos. E com razão.

Ao clube pernambucano, restou apenas a vergonha de ter perdido um jogo de forma covarde e humilhante. Diziam os raivosos Colorados que o Náutico, depois daquele dia, jamais obteria o sonhado acesso à elite.

Ledo engano! O clube de Recife acabaria por atingir a Série A no ano seguinte, com um futebol bastante eficiente. Mas isso não tem a menor importância.

O que realmente deve ser dito é que, de acordo com a Teoria do Caos (confusa e de pouca eficácia científica), aquele pênalti perdido por Ademar alterou a realidade de até então para formar um futuro que não estava nos planos de ninguém, nem mesmo dos gremistas, abandonados à própria sorte naquela altura do campeonato.

Vou explicar. Caso Ademar tivesse convertido a penalidade máxima, o Grêmio perderia o jogo e ficaria relegado à Segundona por mais um ano, o de 2006. Em se mantendo na Série B, o tricolor não faria grandes investimentos no departamento de futebol e teria tantos prejuízos que poderia, inclusive, ter a falência do clube decretada, segundo o próprio presidente Paulo Odone. Com isso, deixaria de montar o atual time e, logicamente, por ficar banido da elite, não se classificaria para a Libertadores não seria vice-campeão da América em 2007. Ou seja: mudaria demasiadamente a história futebolística contemporânea.

E não é só a realidade tricolor que se transformou. Perdendo para o Náutico, haveria um desmonte do valoroso grupo gremista e a formação de uma equipe precária, à qual seria impossível conquistar o Campeonato Gaúcho de 2006. Trocando em miúdos, não teria condições de bater sequer o time de reservas do Inter.

Para lembrar aos incautos, o Inter disputava a final do Gauchão e a primeira fase da Libertadores de 2006 simultaneamente e com o time principal. Como houve Gre-Nal na final, o Colorado foi com força máxima, mas perdeu o título graças ao golzinho marcado por Pedro Júnior no Beira-Rio, empatando os dois jogos. Vale lembrar que o time de Mano Menezes foi muito bem armado defensivamente e neutralizou totalmente o poderio vermelho, que havia atuado com relativo desprezo contra os vizinhos.

Todos os Colorados ficaram frustrados com o inesperado êxito dos azuis. Mais tarde, porém, viu-se que aquele “descuido” foi de fundamental importância para o restante do ano alvirrubro. Como conseqüência, o Inter caiu na realidade e mobilizou-se para vencer a Libertadores, atuando dali para frente com garra e extremo denodo, não deixando dúvidas de que era aspirante ao título continental.

E tudo isso graças ao fato de que havia “caído do salto” perante o maior rival. Logo, uma parcela considerável da torcida rubra (inclusive este que vos fala) acreditou piamente que o Inter passou a viver um novo momento depois da perda do Gauchão de 2006, o que teria deixado o clube com um estigma cauteloso, porém vencedor, até o fim da temporada, chegando à um nível de competitividade jamais visto na quase centenária história do Sport Club Internacional. E sempre jogando livre do indesejado favoritismo contra LDU Quito, Libertad, São Paulo e Barcelona.

Supondo-se que o Grêmio tivesse agonizado na Segunda Divisão em 2006 (com a conversão do pênalti pelo Ademar), o Inter fatalmente conquistaria o Gauchão (pois não teria o Grêmio revigorado pelo caminho) e haveria por contentar-se em manter só a hegemonia estadual, caindo mais adiante em algum prélio eliminatório da Libertadores por soberba e jactância excessiva.

Não há a menor dúvida de que isso viria a acontecer. A história demonstra que a alguns pequenos tropeços servem de trampolim para os grande saltos de qualidade. A derrota para o inimigo, dentro de seu estádio, trouxe ao Inter luz ao invés de escuridão. A lição pela perda do Gauchão foi assimilada à fórceps e vacinou o grupo de jogadores Colorados. Nenhuma partida a partir daqueles Gre-Nais do Gauchão de 2006 poderia ser dado como ganha pelo Inter. Essa é a verdade!

Torcedores, dirigentes, atletas, todos teriam um pé atrás ante qualquer sinal de vantagem exagerada obtida pelo Inter. Simplificando: caso Ademar “guardasse” o pênalti, possivelmente o Grêmio estaria até hoje na Segundona e o Inter persistiria em sua rotina de ganhar só Gauchão e fazer participações apenas honrosas nas demais competições.

Mas Ademar foi bastante “feliz” por ter perdido o malfadado tiro livre, possibilitando toda essa gama de títulos gozados com intensidade pela Nação Colorada.

Entretanto, surge uma indagação atroz: o que teria sido melhor para nós, seguidores da religião alvirrubra – a mantença do Grêmio no limbo árido ou a obtenção das glórias de além-mar pelo Inter? A conquista da Tríplice Coroa internacional ou o massacre lento e inexorável do co-irmão?

Muitos hão de dizer que o lugar do Grêmio é na Segundona, e que, se o Ademar tivesse feito o gol, os bananas de pijama não teriam atingido a final da Libertadores de 2007 e não trariam tanto sofrimento para a Nação Colorada no âmbito da “secação”. Enfim, iriam queimar nas labaredas do inferno, purgando os pecados de gerações e gerações de gremistas impuros.

Confesso que, à primeira vista, a idéia de fracasso do maior rival sempre surge antes de pensar no nosso próprio sucesso. Isso é natural.

Terminada a tal “Batalha dos Aflitos”, tive vontade de cavar um buraco no chão e me enterrar. Mas ganhar a Libertadores da América, o Mundial de Clubes da FIFA e a Recopa Sul-Americana, tudo em menos de um ano, é um sonho realizado. É extraordinário! É quase inimaginável! Isso é imortalidade!

Pouco me importa se esses vândalos travestidos de argentinos, que praticam a avalanche gay na Azenha, comemorem algum título de Gauchão ou de outro torneio qualquer. Eles até foram vice-campeões da América!

Sair do marasmo, deixando o claustro existencial, foi a melhor coisa que aconteceu na história do Internacional, e isso, meus caros, não tem preço.

Que venham mais vitórias épicas para os Colorados, mesmo que tenhamos de aturar as alegrias deles. É fato que a atual rivalidade Gre-Nal acabou por elevar o nível do futebol praticado pelos nossos clubes, os quais visam ainda mais conquistas, sempre no afã de suplantar o rival.

Por tudo isso, Porto Alegre é hoje a capital do futebol brasileiro, quiçá sul-americano. Ao invés de compararmos com os nossos co-irmãos as campanhas medíocres em campeonatos nacionais de outrora e computar títulos gaúchos, estamos fazendo dos torneios internacionais disputas particulares da dupla. A coisa está nivelada por cima. O eixo da gangorra ficou assentado mais para o alto. Houve uma progressão geométrica das expectativas como jamais houvera em 98 anos de rivalidade Gre-Nal.

Perdoe-me, Ademar, mas tu foste o anti-herói mais importante da história do futebol do século XXI, beneficiando ambas as torcidas gaúchas, mesmo que indiretamente, em um curto espaço de tempo.

Sei que muitos irão manifestar discordância acerca desta modesta opinião, alegando que estou forçando a situação ou que estou raciocinando hipoteticamente, de forma a justificar o injustificável. No entanto, ressalto que tudo o que aconteceu está consolidado por uma sucessão de fatos importantes dentro do contexto apresentado e qualquer mudança retroativa (como a transformação em gol do pênalti fatídico) alteraria a ordem universal das coisas. Trata-se apenas da aplicação pura e simples da Teoria do Caos no futebol.

Para quem nunca ouviu falar na Teoria do Caos, trata-se da hipótese que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos, em que determinados resultados podem ser “instáveis” no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis.

Isso significa que certos resultados determinados são causados pela ação e a interação de elementos de forma praticamente aleatória. A idéia é que uma pequena variação nas condições em determinado ponto de um sistema dinâmico pode ter consequências de proporções inimagináveis. No caso das borboletas, o bater de asas de uma delas num determinado lugar do mundo poderia gerar uma movimentação de ar que, intensificada, desencadearia a alteração do comportamento da atmosfera da Terra em localidades distantes.

Por tudo isso, digo, afirmo e repito: a responsabilidade toda é do Ademar. Se ele tivesse batido o pênalti no outro canto, hoje haveria um cenário totalmente diferente no futebol gaúcho, talvez de choro e ranger de dentes para ambos os clubes e torcidas. Mas ele errou! Palmas para o Ademar!

Finalizando, somente para corroborar tudo o que foi dito acima, registro que o cidadão Ademar nasceu no dia 20 de setembro, data histórica e de relevante importância para o Estado do Rio Grande do Sul.

Era destino! E talvez nem ele saiba que foi o criador do atual universo paralelo do futebol, no qual Inter e Grêmio estão conseguindo façanhas antológicas contra os mais temíveis adversários.

Lembrem-se sempre do Ademar.

Ficha do ilustre

Nome: Ademar José Tavares Júnior

Data de nascimento: 20/09/1980
Naturalidade: Jaboatão dos Guararapes (PE)

Posição: Lateral-esquerdo

Altura: 1,78m
Peso: 69 kg
Clubes: Sport (PE) e Náutico (PE)

Anúncios
comentários
  1. BigDog disse:

    Alemão, um poema!!! Mas eu, que sou mais tosco, não consigo evitar a flauta! E dá-lhe BOCA!!!

  2. Ruben disse:

    Só uma coisa não mudou: a raça (correria e trombadas) e o futebol sofrível do Grêmio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s