Momento filosofia de boteco

Publicado: 01/05/2007 por BigDog em Cultura nunca é demais!, Um muito sobre nada...

Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido. Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia. Esse planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes. E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais. Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas pessoas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar. (Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias)

Muito papel e tinta já foram gastos, milhões de litros de cerveja consumidos e um exército de garçons contratados sem que tenha sido possível para o homem descobrir o sentido real da vida. Você sabe, as respostas para as questões fundamentais: quem somos, onde estamos, para onde vamos e, principalmente, tem picanha lá? Milhares de hipóteses já foram traçadas, as mais diversas e conflitantes, desde que somos apenas um emaranhado de DNA auto-replicante à célebre visão de que somos manifestações terrenas de forças espirituais mais elevadas, estas sim conhecedoras da resposta para a pergunta que nos incomoda todos os dias. Seja qual for a explicação, lendo a obra de Douglas Adams consegui uma figura de linguagem para uma sensação que sempre tive: dinheiro, no final das contas, é apenas um pedaço de papel pintado. Hoje em dia, nem isto, porque os valores são meros créditos contábeis, duvido até que existam fisicamente todos os dólares investidos, negociados e creditados no mundo. Se todos os correntistas resolverem sacar em espécie a integralidade de seu dinheiro ao mesmo tempo de um banco, seja ele qual for, a quebra é imediata, porque não existe materialmente o dinheiro que por ali teoricamente circula. No futuro, sequer dependeremos de bancos e instituições financeiras para guardarem esses créditos. No Japão, experimentalmente, já existe um modelo de celular que registra um determinado número de ienes e depois repassa a estabelecimentos credenciados os valores, abatendo-os da conta do proprietário. Ou seja, sequer receberemos nossos salários no banco, o pagamento pode muito bem ser creditado direto no nosso celular, PDA, notebook, ou qualquer outra engenhoca que se crie. Certamente, portanto, que o dinheiro não é a fonte ou o objetivo da vida. E qual seria? Bom, tenho que pedir outra uma cerveja ao garçom, mas acho que o fundamental é a paz de espírito. Não há dinheiro, bem ou posse que justifique a perda deste estado. Poder chegar em casa ao final de um dia estafante em que vendemos nossa liberdade a troco de um punhado de dinheiro – que muitas vezes ironicamente se consome em si mesmo (almoço, transporte, roupas adequadas, etc.) –, deitar a cabeça no travesseiro sem preocupações depois de ter convivido de forma qualificada com a família, definitivamente é um bem que não pode ser mensurado. E como alcançar tal estado de espírito? Bom, não dá para resolver uma dúvida sem criar pelo menos mais outra. E, definitivamente, precisamos ir a um bar, que esse assunto todo só se desenvolve a base de muito chopp. Voltamos à nossa programação normal.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    A paz de espírito.
    Sim. É ela que possibilita aos insignificantes seres humanos almejar grandes desafios, encarar o chefe na segunda-feira, ficar satisfeito com o clube do coração mesmo com o Gabiru jogando, fazer sexo periodicamente, gastar dinheiro em impostos, dormir pouco e trabalhar muito, enfim… só com paz de espírito para que o nosso universo tenha algum sentido.
    E quem será que nos inseriu no cérebro o conceito de paz de espírito? Será que o que está ali programado como ‘paz de espírito’ realmente tem alguma importância? Onde entra a Rede Globo nessa história?
    Eu não sei de nada, só sei que cada um tem a sua forma de encarar as dificuldades e as alegrias da vida. Eu, pessoalmente, ando me contentando com pouco, mas creio que em breve o que me basta hoje não será suficiente.
    E porque precisamos buscar a felicidade de forma incondicional se nos momentos de infelicidade e dificuldade é que nossos intelectos mais funcionam?
    E o que dizer daquelas pessoas que jamais conseguirão ser felizes porque não possuem a menor capacidade para buscar alguma alegria e vencer desafios? Será que estas não possuem paz de espírito? Ou o espírito na realidade não existe e tudo isso é só um engodo para nos mantermos vivos?
    A depressão é como o mal. Ela surge naturalmente. Porque, de fato, ser uma boa pessoa, ter bom humor, ter paz de espírito e ser feliz, realmente é coisa para poucos e dá um trabalho desgraçado. É mais fácil ser um desgraçado, maldoso e infeliz.
    Vai ver que por isso muitos se entregam para o mal, definitivamente.
    E se o lado da maldade possuir também a felicidade e a paz de espírito, mas de uma forma paralela?
    Vai saber… Por enquanto eu sigo assim mesmo o meu caminho tortuoso.

    Belo post, Cachorrão!

  2. BigDog disse:

    Tô falando, o que falta é chopp… O comentário foi melhor que o texto!

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