Requentado do Cachorrão – abril/2007

Publicado: 28/04/2007 por BigDog em Ando ouvindo., Solta o som...

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Jornalismo musical é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar para gente que não sabe ler. (Frank Zappa)

Uma das causas fundamentais que me levou a ter um blog é a possibilidade de escrever sobre música, compartilhar experiências nesta área e trocar idéias, dando dicas aos leitores e recebendo novas informações em troca. No blog antigo eu até tinha uma seção chamada “Ando Ouvindo” na qual indicava o disco que estava rodando direto naquele momento específico. Mas nunca fiquei satisfeito com o resultado final, é muito difícil explicar (ou ao menos tentar) o que se aprecia em um disco ou em uma música e estava escrevendo muita bobagem, mais confundindo que explicando, o que aliás é a tônica do jornalismo musical, como bem explicou mestre Zappa. Por isso, a idéia do requentado do mês. Sabe quando você chega em sua casa cheio de fome e não tem nada decente para comer? No desespero, pega uma sobra de feijão e arroz, meio bife, duas rodelas de tomate e umas fatias de queijo e coloca tudo no forno microondas, com um ovo frito por cima, certo? Então, esta é a idéia do requentado, palpites rápidos e sucintos, sem muita tese – se eu disser que tal disco “parece uma espécie de música para dançar na areia” (Robert Smith, do The Cure, sobre o álbum Mixed Up), por favor avisem, que eu não quero exagerar –, com os ingredientes que estiverem à mão, tentando trazer apenas dados concretos e atribuindo uma nota ao final. O critério para as notas? Minha humilde opinião e mais um: dez só para Deus em caso de alguma manifestação divina. Zero, só para pagodeiro, artista de axé ou dupla breganeja. Sem mais delongas, vamos ao requentadão deste mês.

RUSH – Snakes & Arrows (2007).
Décimo oitavo disco de estúdio do Rush (desconsiderado “Feedback”, um EP apenas de covers), “Snakes & Arrows” é completamente diferente de tudo o que a banda lançou anteriormente. Até aí, nenhuma novidade. A boa notícia é que a diferença desta vez é apenas uma: Alex Lifeson. Lerxst finalmente resolveu mostrar que tem cabelo no peito e pegou seus violões de seis e doze cordas, guitarras (desconfio que até a velha Gibson SG Double Neck), banjos e bandolins (não, ele não virou o Oswaldo Montenegro) e levou tudo para o estúdio. Por isso, as harmonias e arranjos são calcados praticamente apenas nestes instrumentos e Alex demonstra o porquê de estar em uma banda tão boa há tanto tempo. Da próxima vez que alguém vier me dizer que “o Rush é legal, mas o guitarrista é fraquinho”, vou sacar meu S&A do bolso e submeter o sujeito a uma audição completa do disco. Se a opinião persistir, a culpa não vai mais ser minha. Ademais, um disco muito bem trabalhado, embora um tantinho pop demais para o meu gosto, mas inegavelmente maduro e coeso. Tão bom que mais de 90% das bandas em atividade dariam as calças para fazê-lo. Geddy e Neil? Bem, eles estão lá e ainda são Dirkie e Pratt, o que já é mais do que suficiente. Nota 8,5, com louvor!

ECHO AND THE BUNNYMEN – Ocean Rain Remastered & Expanded (2004).
Tudo bem, tem todo aquele papo de “The Killing Moon” ser a música pop perfeita e o escambau, o que eu acho particularmente um exagero, embora seja uma faixa memorável e extremamente influente em sua época. Com tanta gente pagando pau para a música, várias canções muito boas se perderam na poeira do tempo e quase ninguém lembra de “Seven Seas”, “Crystal Days”, “Silver” e a própria “Ocean Rain”. O grande mérito desta versão remasterizada, comemorativa dos vinte e cinco anos da banda, é trazer de volta, em versões tecnicamente melhores, essas pérolas do tempo em que eu tinha cabelo e, ainda, vários bonus track, inclusive versões ao vivo de “My Kingdon” e “Ocean Rain”, e a curiosa cover da banda para “All You Need Is Love”, dos Beatles. Ouça sem expectativas e compromisso. Duvido que, se você viveu os anos 80 na pele e não em festinhas ridículas do Pipe, uma lágrima não acabe rolando em algum momento. O Echo And The Bunnymen é uma banda bem normal mas suas músicas, na minha memória, são quase imortais. Nota 6,5.

XIU XIU – Air Force (2006).
A informática, como tudo nesta vida, tem seus aspectos positivos e outros não tão elogiáveis assim. Se os computadores permitem que a produção musical seja muito mais acessível hoje em dia, disponibilizando mesmo a iniciantes a rápida divulgação de seu trabalho de maneira extremamente ágil e com qualidade próxima à profissional, coisas como os Garage Band da vida também permitem que verdadeiros atentados como este se perpetuem. Um dos piores discos nos quais eu já coloquei meus ouvidos nesta vida, e olha que eu já escutei um bocado de porcaria. Ruim, mas ruim de doer. Se alguém um dia quiser processar Mr. Steve Jobs por causa deste álbum, eu vou ser testemunha de acusação. Ouça o que eu digo: não se aventure, não perca o seu tempo. Cada audição de “Air Force” representa trinta e quatro minutos a menos em sua vida e, a menos que você esteja com alguma tendência masoquista, não deve se submeter a isto. Simples assim. Nota 1,0017.

YO LA TENGO – I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass (2006).
O Yo La Tengo é uma das minhas bandas favoritas. Se você for dar uma olhada na minha página da Last.fm, verá que eu escuto a banda com muita freqüência. Na real, apenas menos que Rush, o que já quer dizer muita coisa. Pronto, já confessei. Agora, vamos aos fatos: eles são muito irregulares, alternando discos excelentes (“I Can Hear The Heart Beating As One”, “Electr-o-pura”) com porcarias homéricas (“Fakebook”, “And Then Nothing Turned Itself Inside-Out”). E, como os dois últimos (“Yo La Tengo Is Murdering The Classics” e “Summer Sun”) se enquadravam à perfeição nesta última categoria, não levei muita fé com o lançamento deste “I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass”, porque o título (não tenho medo de você e vou chutar sua bunda) sugere algo do tipo “a gente toca o que quer e vão se danar!”. Pois não é que a bolachinha é muito boa? Pesado, despirocado e instigante! Só a faixa de abertura “Pass The Hatchet, I Think I’m Goodkind”, com seus quase onze minutos de duração e vinda direto do baú perdido do Velvet Underground, já vale o investimento. Eu adorei, mesmo. Recomendo. Nota 7,25.

PORCUPINE TREE – Fear of a Blank Planet (2007).
Em apenas uma palavra: putaqueosparil, com o perdão da grosseria. Nota 8,75.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    Gostei dos comentários!
    Grande Cachorrão no trago… meu guru para discos de música ligeira!

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