Imprevisibilidade – parte 2

Publicado: 12/04/2007 por Crânio em Fórmula 1

Tenham paciência, um dia iria terminar meu raciocínio (lento) sobre este tema.

Vou trabalhar sobre alguns detalhes de cada “época” da fórmula 1, e com isto mostrar quão difícil era ganhar uma corrida em outros tempos. Ganhar um campeonato, uma glória. Encerrar a carreira campeão e vivo, uma dádiva!!!!

Início da década de 70. A construção dos chassis dos carros de F1 eram artesanais (manual, coisa de artesão mesmo), baseado em conhecimentos adquiridos na prática, com algumas pitadas de ousadia ou tecnologia, o que tornava cada carro muito diferente. Cada carro levava muito da personalidade do projetista, seus erros e acertos conceituais.

Erros que poderiam tornar-se acertos, pois um carro que tivesse desempenho ruim em traçados lentos, poderia ter um desempenho melhor em traçados velozes (influencia nisto a distância entre-eixos, distribuição de peso, fluxo do ar). Também o desenho de suspensão diferenciava muito de um carro para outro, o que altera, além da estabilidade, o comportamento dos pneus, que vai afetar a tração… Em resumo: piloto vai lá e desce a bota na bagaça, sentindo “no braço” o que pode e o que não pode fazer com o carro. Em quase duas horas de corrida, com um câmbio duro, um volante pesado, e um estresse do caramba, precisa manter a concentração para terminar uma corrida e ir ajustando a velocidade ao desgaste e comportamento do equipamento.

Como item nivelador de desempenho, a motorização era quase monomarca. Em 1974 por exemplo, dez equipes estavam equipadas com motor Ford Cosworth, uma com motor Ferrari (adivinhem qual equipe?), e a equipe BRM que também usava motorização própria.

Resumindo: motores quase iguais, chassis que eram uma incógnita, durabilidade duvidosa. E o piloto que tire o melhor destes ingredientes. Logo, o piloto era o diferencial.

Final da década de 70, mais precisamente 1978, uma mudança radical no conceito dos carros de F1. Introduz-se o efeito-solo, que nada mais é do que usar o ar que passa por baixo do carro para fazer este ficar ainda mais “grudado” ao chão. Ganha-se muita velocidade nas curvas com este efeito. Só que ele é extremamente delicado, quando trata-se do desempenho em situações limite. E as pequenas barbeiragens dos pilotos que viessem a danificar a parte inferior do carro (como sair da pista, passear na grama, subir na “zebra”), eram duramente castigadas com perda de desempenho, possibilitando ultrapassagens a qualquer momento desde que algo banal, como um dos carros subir na zebra, ocorresse.

Um ano antes, a Renault havia entrado na F1 e trouxe com ela os motores turbo. Com o turbo no motor, pode-se utilizar um motor 1.5 e ter a potência de um 3.5. Ganha-se com isto em distribuição de peso do carro, que não terá um “motorzão” pesado lá atrás, o que irá melhorar desempenho em curvas e frenagens. Mas este motor possui dispositivos bastante complexos e sensíveis (a turbina gira a aproximadamente 140.000 RPM…caralho!!!). Também seu bom desempenho era limitado às altas rotações, algo acima dos 6.000 RPM (seu carro, à 80km/h em 5º marcha está à 2.000 RPM), tornando os carros com motores turbo alvos fáceis de serem ultrapassados nas partes mais lentas dos circuitos. Na parte veloz, o turbo ultrapassaria o motor convencional. Isto até o motor turbo estourar, pegar fogo e o convencional chegar ao final da corrida!!!

Resumo: piloto tinha que sempre olhar para o retrovisor…para ver se o motor não estava pegando fogo!! E não podia errar. Piloto muito importante, né!!??!!

Só que desenvolveram o turbo para melhorar a potência em todas as rotações, e o efeito-solo começou a ganhar estudo computacional no início dos anos 80. Aí tiveram que banir estes dois itens antes que o campeonato terminasse por falta de pilotos (esta época foi muito sangrenta, é onde perdemos Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve, Patrick Depailler, Riccardo Palleti e por que não colocar também Didier Pironi, que não morreu em combate, mas encerrou carreira prematuramente).

Em meados da década de 80, começamos a ver um maior envolvimento dos grandes fabricantes de automóveis com a fórmula 1. A tecnologia eletrônica alia-se aos boxes e os engenheiros podem acompanhar o que acontece com o carro através da telemetria. Com isto sabem quando o piloto freia, acelera, qual velocidade na curva, na reta. E através da comunicação com o piloto, indicar-lhe o melhor modo de pilotar. O piloto perde um pouco da sua importância, e a previsibilidade começa a atingir níveis alarmantes.

Chegando à década de 90, temos a invasão completa da eletrônica no carro de F1. Do câmbio à suspensão, passando pelo monitoramento e controle da central eletrônica do carro via box (se o engenheiro quisesse sacanear o piloto e desligar o carro via box isto era possível!), temos uma nave espacial com 4 rodas; porém esta tecnologia ainda era incipiente e suscetível à quebras. Quando funcionava tudo direitinho, o carro ganhava com “uma semana de vantagem” para os outros. Só que às vezes quebrava. E ganhava outro com um aparato tecnológico menor e mais confiável.

Resumo: procure a equipe com mais dinheiro.

Chegamos ao terceiro milênio e a F1 está longe de apresentar a competitividade que existia nas décadas anteriores. As simulações computacionais permitem criar projetos de chassi que possuem desempenho igual em qualquer tipo de pista. Os túneis de vento permitem apurar ainda mais estes projetos. E o excesso de testes extra-campeonatos reduzem a quase zero o desconhecimento dos engenheiros e pilotos acerca das várias nuances que um carro de F1 pode apresentar durante uma temporada.

E se você olhar uma tabela de testes extra-campeonato (que ocorreram em janeiro e fevereiro) e comparar com o que aconteceu nas duas primeiras provas: repetição pura e simples de resultados e colocações. E será assim até o final do ano…

E por que eu continuo olhando isto??? Não sei…

O esporte bretão é muito mais emocionante exatamente pela imprevisibilidade. Mas isto eu deixo para meu amigo Felipe “Alemão” comentar.

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comentários
  1. Felipe Wolfarth disse:

    Felizmente, para quem gosta de futebol, o esporte está cada vez mais imprevisível. Pena que a qualidade técnica esteja sendo sobrepujada pelas táticas defensivas e pela preparação física excessiva.
    Mas… Parabéns, Crânio! Conseguiste explanar com brilhantismo sobre a evolução (?) da Fórmula 1.
    Da mesma forma que a tecnologia está nivelando por baixo os pilotos, a evolução tática e física está fazendo com os times de futebol.

  2. BigDog disse:

    Nah, esse negócio que os carros nivelam os pilotos também não é bem assim. Se fosse simples, o Pé-de-chinelo teria feito pelo menos um papel menos ridículo quando estava na Ferrari. E nem me venham com este papo de segundo piloto prejudicado, que a equipe só dava bola para o Schumacher, que desculpa de peidorreiro é tosse!

  3. Crânio disse:

    Não, a tecnologia não nivelou totalmente. Mas se o pé de chinelo fosse correr com a Toleman do Airton, iam dar de relho nele até ele falar fino. Ia largar em último e ser ultrapassado pelo carro madrinha!
    E com relação as táticas e a preparação física, concordo c o Felipe: até achei que voltaríamos a ter times mais ofensivos no início deste novo milênio, graças a novos craques que surgiram no ataque. Mas os técnicos impedem eles de fazer gol!!!

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