Academia Brasileira das Idéias Confusas

um pouco sobre tudo e um muito sobre nada

Qual a maior tragédia?

com 5 comentários

Acho que não é necessário escrever sobre o tamanho da tragédia ocorrida com a menina Isabela Nardoni em São Paulo. Não bastasse ter sido brutalmente espancada e defenestrada do sexto andar do prédio onde morava, há fortes indícios de que a menina foi assassinada pelo próprio pai e/ou madrasta. Uma situação estarrecedora e, por isso mesmo, que desperta grande interesse na opinião pública.

O caso é que há outra tragédia em curso nessa história toda: a do culto à personalidade. Todos os dias assisto a um ou outro telejornal, hábito que acredito estar arraigado na cultura da imensa maioria da população brasileira. E não há um único destes programas em que não se veja a figura do promotor de justiça Francisco Cembranelli dando declarações sobre todos os passos da investigação. Não sendo suficiente, ainda se entrevistam delegados, peritos, advogados, empregados de supermercado, guardador de carro, vendedor de raspadinha, enfim, qualquer pessoa que possa ter alguma ligação, mesmo que remota, com o caso. Neste samba do crioulo-doido que virou a investigação, a postura do digno promotor assusta. Fosse eu o encarregado de desvendar o caso – coisa que tenho dúvida se compete efetivamente ao MP e não às áreas técnicas da polícia – não faria tanto alarde, nem tanta questão de dar declarações de maneira reiterada e impertinente. Já restou mais do que evidente a vontade de Francisco Cembranelli de ter a imagem associada ao um crime bárbaro para aparecer na mídia e ser lembrado pela participação em um caso de imensa repercussão nacional. Transparece, ainda, a vontade de que sejam, efetivamente, os pais os culpados pelo ocorrido, porque nessa hipótese o julgamento será espetacular, com mais holofotes e exposição pública. Se tudo isso decorre de mera vaidade ou se há no ar o cheiro de alguma vantagem decorrente do episódio, é uma incógnita. Em todo caso, parece desagradável que face a um crime tão bárbaro um ou outro sejam satisfeitos.

A morte, na minha concepção, é uma tragédia individual e familiar, sem sombra de dúvida, mas isso não significa expor de maneira irracional a dor dela decorrente. Penso que deva ser um momento de recolhimento, reflexão e lamento silencioso. Quando for minha hora, peço que todos pensem em mim com um pouco de tranqüilidade. Se for possível, com uma certa alegria, porque é isso que pretendo levar comigo. No caso de Isabela, entretanto, tudo isso está sendo negado por puro narcisismo dos envolvidos e curiosidade mórbida do público em geral. Por isso, acho que devemos apelar ao bom senso e pedir: deixem Isabela em paz!

Written by BigDog

09/04/2008 às 1:02 am

5 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. O Ministério Público, dentre suas atribuições constitucionais, não pode revestir-se de órgão repressor, suprimindo a tarefa de competência das polícias, mesmo tendo todo o comprometimento com a acusação e com a Justiça, enfim.
    Só sei que ainda não tenho opinião sobre esse caso, levando-se em consideração a autoria do delito. Quando há repercussão midiática, não costumo tomar posição de ataque ou de defesa de quem quer que seja.
    Só sei que há uma vítima, e como bem arrazoou meu amigo BigDog, deveria haver respeito pela situação ainda recente do óbito dessa menina, que ainda na aurora de sua vida não teve sequer tempo de saber o que seria a Justiça.

    Felipe Wolfarth

    09/04/2008 em 9:05 pm

  2. A minha observação sobre este caso, após acompanhar esta tragédia (por falta de alternativas) em vários noticiários é em relação à postura de alguns apresentadores. Muitos não são apresentadores apenas; tornam-se comentaristas tendenciosos, direcionando a opinião da população conforme suas visões deturpadas de direito e utilizando-se de premissas particulares com base nas notícias de algumas investigações. Esquecem (ou sabem muito bem!!??) que suas opiniões encontram eco em milhões de expectadores que não são muito versados em utilizar o cérebro para formular opiniões próprias. E criam-se heróis e vilões ao sabor de que diz o ponto eletrônico destes pseudo-apresentadores.
    Neste caso mais uma vez fico pensando se toda midiatização de uma tragédia familiar poderá trazer algum benefício à sociedade. Desculpe o racicínio escatológica a seguir, mas será que alguém que pensava em atirar uma criança pela janela irá repensar sua atitude? Será que criaremos leis que impossibilitem este tipo de tragédia? Ou apenas não havia nada de inteligente para veicular nos telejornais e aproveitam-se do gosto por sangue que existe na maioria da população e com isto aumentar seu ibope?
    Informação não é banalização.

    Crânio

    10/04/2008 em 9:33 am

  3. E o churras vai sair???

    Crânio

    10/04/2008 em 11:38 am

  4. Com certeza! Leva a canha, que eu sisqueci de comprar.

    BigDog

    10/04/2008 em 12:40 pm

  5. [...] of Confused Thoughts”, in portuguese] writes the words below in their post entitled “which the biggest tragedy?“: “Já restou mais do que evidente a vontade de Francisco Cembranelli de ter a imagem [...]


Deixe um comentário